quarta-feira, fevereiro 07, 2007











OS GATOS

Vai para 30 anos que partilho com algum felino a minha vida. Eles foram partindo, por doença sempre, e deixando sempre uma grata recordação da sua passagem junto de mim. Contudo, o Tiago, gato tigrado que apanhei junto ao Mercado da Ribeira, quinze anos atrás, e que cabia na íntegra numa mão, foi um companheiro muito especial pela sua rebeldia e ferocidade de gato selvagem, que os seis dedos em cada pata, comprovaram. Fez anteontem 15 dias que teve de ser abatido por estar com um cancro e diabetes, e algo se partiu em mim. Nunca uma perda felina me foi tão intensa como esta, de tal forma que senti absoluta necessidade de logo no dia seguinte ir em demanda de novo companheiro. E foi assim que conheci o Tição, gato de 3 meses, preto, como o nome que lhe dei bem indica, e que recolhi duma vivenda onde habitava bem tratado, mas com alguém que não podia continuar com ele.
Ao invés do Tiago, é meigo, embora na brincadeira bravia com as minhas mãos já me tenha deixado marcas visíveis.
Mas o que achei curioso foi a facilidade com que arranjei um gato preto, tendo-me sido dito no Hospital Veterinário onde procurei encontrar algum, que ainda existem muitas pessoas que detestam gatos pretos, chegando ao ponto de me advertirem para não o deixar sair de casa para não ser assassinado.
Moral da história: AS SUPERSTIÇÕES AINDA ESTÃO BEM VIVAS NESTE PAÍS!
Teresa David- fotos do Tiago e do Tição

sexta-feira, fevereiro 02, 2007



É DIA DO MEU ANIVERSÁRIO

02 de Fevereiro

E aqui faço um tchin tchin com todos os que me têm visitado e acarinhado ao longo da existência do meu blog.

Teresa David

domingo, janeiro 28, 2007



PEITO ARDENTE

Não são de cão as garras que se enterram no meu peito desnudo.

Olho, indiferente, o sangue que escorre peito abaixo, aquecendo a barriga com um quente viscoso.

Alheia, estática, o olhar fixa-se num ponto existente em nenhures.

Estado comatoso, sentada, transida de frio, á espera do beijo encantado que me poderá despertar!

Teresa David - quadro de Lucien Freud

quinta-feira, janeiro 25, 2007



AS COFFEE SHOP

Gosto muito de cafés, pastelarias, cervejarias, restaurantes, em suma, sítios onde se possa comer ou beber, de preferência em qualidade, e sem excessos.

De dia, para dia, sinto em Portugal mais dificuldade em habitar tais sítios sem me sentir completamente desconfortável. Ir para o café beber a bica, e tentar ler um livro é algo quase impossível, pois mesmo que tenha apenas uma ou duas pessoas, elas lançam as suas vozes até aos limites das cordas vocais, por detrás do balcão as chávenas gritam em encontrões entre si, e os empregados vociferam a raiva de serem mal pagos, suponho.

Ainda encontro um que outro restaurante mais calmo, mas se tenho o azar de haver aniversariantes logo a confusão e gritaria começa, ao ritmo dos copos que vão sendo despejados.

É então que recordo as minhas idas á Holanda, onde também se come e bebe, mas ninguém se atreve a altear a voz, pois seria logo olhado ferozmente por alguém, uma vez que o civismo já faz parte do quotidiano daquela gente, sem escolha de classes.

Indo mais longe não resisto a relembrar as coffee shops, que mal se cruza a porta ficamos pedrados pelo cheiro intenso da mistura do haxixe com a marijuana, mas onde se respira silêncio e paz. E questiono-me: Para quê reprimir e ilegalizar seja o que fôr, se numa sociedade civilizada em que existe o respeito uns pelos outros, ninguém por auto-repressão se atreve a incomodar os outros?

Acresce ainda que enquanto as drogas leves tornam as pessoas pacíficas, o alcóol que somos campeões de consumo, torna muita gente briguenta e completamente anti-social,

Não estou a fazer a apologia do consumo, pois apesar do tabaco que é legal ser tão ou mais deletério que as drogas leves para a saúde, para mim a base de tudo é o ânsia de ainda conseguir ver um dia, as pessoas neste País respeitarem as escolhas umas das outras sem agressões ou preconceitos bacocos.

Mas cada vez me parece mais uma utopia!

Teresa David-foto minha de Amesterdão

sexta-feira, janeiro 19, 2007



UMA GAIVOTA
Estava eu pacatamente a começar a comer uma gigantesca tosta mista em pão saloio, no 4º andar dos serviços médicos bancários, junto á rasgada janela sobre a mesquita perto da Praça de Espanha, onde me desloco amiúde para tratar as mazelas do corpo, quando ouvi um bicar estranho vindo da janela. Olhei, e apercebi-me que uma gaivota estava no parapeito a olhar-me fixamente. Como o rio ainda fica longe, achei estranha a sua presença por ali, mas continuei a trincar a minha tosta. Nova bicada, novo olhar, e o fixar-me de novo nos olhos! Aí já comecei a achar um pouco estranho, pois nunca tinha pensado ser possível uma gaivota ter um olhar tão penetrante.
Desconfiada que ela já seria "cliente" habitual dali, abri a janela e partilhei a minha tosta, que de tão grande exorbitava o meu apetite, e verifiquei que engoliu o pedaço de imediato, e voltou a olhar para mim fixamente. Voltei a abrir a janela, e dei-lhe á mão mais um bocado, que desapareceu num ápice.
Solitariamente divertida comecei a pensar com os meus botões que no fundo todos os animais se permitirmos arranjam forma de dialogar connosco. Mas foi a primeira vez que travei conhecimento de tão perto, e desta forma, com uma gaivota, que depois de saciada a fome me deitou um último olhar, e voou rápidamente para um candeeiro bem longe de mim.
Teresa David- fotos minhas

segunda-feira, janeiro 15, 2007






OS MUSEUS QUE VISITEI EM AMESTERDÃO
Desde muito tenra idade que tive o privilégio de visitar Museus. Meu Pai, amante incondicional de pintura, começou a levar-me a visitar exposições a partir dos 3 anos de idade. E como creio firmemente que é de pequeno que se adquirem hábitos de cultura, a ele devo ter permanecido até hoje com este prazer de deslumbrar-me com a Arte.
Embora já tivesse visitado o Museu Van Gogh na minha estadia em Amesterdão em 2003, achei que seria incontornável lá voltar, e em boa hora o fiz, pois tive a sorte de apanhar uma exposição temporária dos Modernistas Alemães, entre os quais Kandinsky, cuja obra nunca tinha visto ao vivo.
No Rijksmuseum vi uma extensa colecção da obra de Rembrandt, pintor presente em muitos recantos da cidade, quer através de monumentos em seu louvor, como da casa-museu onde habitou, e até de cafés ou pubs com o seu nome.
Por fim, consegui ver alguns quadros de coleccionadores russos que pertencem ao Hermitage de S. Petersburgo, mas estavam "na filial" Holandesa desse gigantesco Museu.
Deixo aqui as imagens de alguns quadros, que por razões diferentes me impressionaram, e gostava de partilhar desta forma o prazer que tive em sentar-me em frente deles e olhá-los longamente.
Mas o que realmente mexeu mais comigo foi ver, mães e pais com as suas crianças pequenas, a ensinar-lhes os nomes dos Pintores, pormenores dos quadros, para os tornar homens e mulheres com uma bagagem, que infelizmente já perdi a esperança de ver os nossos descendentes portugueses terem!
Teresa David
Da esquerda para a direita:
Quadro sarcástico do pintor Alfred de Dreux (1857) - Hermitage
A noiva judia de Rembrandt - Rijksmuseum
A cozinheira de Vermeer - Rijksmuseum
O cisne enfurecido de Jan Asselyn pintor do século XVII. Este quadro é um simbolo patriótico para os Holandeses
Quanto ao sapatos velhos é um quadro pouco conhecido de Van Gogh que já da outra ida ao Museu me tinha impressionado pela diferença em relação á sua restante obra.

quarta-feira, janeiro 10, 2007



A ESTRELA DO MAR

Uma Estrela do Mar na areia aportou.

O Sol queimante a matou.

Os banhistas á beira mar á bola jogavam,

e a Estrela do Mar, esmagaram.

Todos partiram e a noite chegou,

só a Estrela do Mar na areia ficou!

Teresa David- Aguarela pintada por mim

sábado, janeiro 06, 2007




OS CORVOS DE AMESTERDÃO

Ao passear-me pelas ruas de Amesterdão comecei a encontrar amiúde corvos empoleirados em árvores, plácidos, quase sem mexer, e nos arredores da cidade a caminharem lentamente pelos relvados.

Isso fez-me andar para trás até á infância, e recordar, os meus 8 anos, em que já partilhava a leitura do jornal com meu pai, que me dava sempre, além dos suplementos infantis, a página onde se encontrava a crónica de Leitão de Barros no Diário de Notícias, de nome "OS CORVOS", enquanto me dizia: Cultiva o sentido de humor que é uma das melhores armas que poderás ter ao longo da vida.

Eram sátiras de costumes, de uma finura de linguagem, que hoje, infelizmente, raramente se encontra nos cronistas contemporâneos. Embora ele tenha sido cineasta e eu tenha visto, em reprise, os seus filmes, nomeadamente, A SEVERA, ALA ARRIBA, e principalmente CAMÕES, onde uma das minhas tias maternas, agora com 91 anos, foi buscada a casa pessoalmente pelo Leitão de Barros, para participar num pequeno papel no filme,mas a sua gigantesca timidez e preconceitos, fizeram que lhe passasse ao lado uma carreira de actriz, são as suas crónicas que me ficaram a dançar na memória através dos anos, e provocaram recordá-lo quando decidi falar dos corvos de Amesterdão, pois os de Lisboa, só se encontram nos nossos dias na bandeira da edilidade!

Daí não resisto, e deixo aqui uma das suas crónicas, que infelizmente, diria mesmo, lamentavelmente, continua actual, apesar de decorridos quase 50 anos sobre a sua publicação:

VISTORIA

Um dos aspectos simbólicos das mais altas tradições peninsulares é o cuspir no chão. "Se proibe escupir en en suelo", "É proibido cuspir no chão" - são dísticos que não dei fé de ver afixados em quaisquer outros idiomas senão nos de Camões e de Cervantes. E diz-nos uma correspondente: "Na Suiça não há escarradores". A simples necessidade de fazer, por habitante, uma "capitação" da saliva é, por si, um sintoma de que permanecemos fiéis a uma histórica herança de nossos maiores. Há tempo fez-se, ingenuamente, a campanha de "engolir em seco". Chegou-se a pôr um polícia na estação do Rossio, de guarda ao cuspo. Passado, porém, certo tempo, o caso esqueceu, comos os enredos dos filmes de cinema, E o polícia foi o primeiro a cuspir, num hábito puramente profissional.

Desafio aqui alguém a dizer-me que já não vê ninguêm cuspir no chão, e com requintes de malvadez, escarros bem puxados dos seus âmagos!!!

Teresa David - aguarela minha baseada nos corvos vistos em Amesterdão

terça-feira, janeiro 02, 2007




ANNE FRANK HUIS (CASA)

Sempre fui um pouco esquiva a visitar casas/museu com cargas históricas de acontecimentos que mexeram comigo. Esta casa seria uma delas, daí não a ter visitado na primeira vez que estive em Amesterdão.
No entanto, desta vez afoitei-me, e quando entrei no esconderijo da Família Frank, em particular no quarto que ela habitara, cujas paredes forradas com fotos de estrelas de cinema da época, e estampas de flores e bichos, nos transportam para um Universo de adolescente cheia de sonhos que ficaram por cumprir, e com alguma imaginação poder-se-á visualizar as suas mãos a colar tais adereços, imagens estas que a própria menciona no seu diário quando diz: Assim o quarto fica mais acolhedor, menos pequeno!
Era a forma de abrir uma janela para o exterior - digo eu.
Pelas várias dependências encontrei ecrãs onde se podia assistir aos testemunhos de várias pessoas que passaram por aquela casa, como a secretária, e nomeadamente o seu Pai, que conseguiu ser salvo do Campo Concentração pelas Forças Aliadas.


Mas, mais do que tudo, o que realmente me fez engolir uma lágrima mais afoita, foi ver o original do diário, escrito com letra típica de menina, e tão semelhante á minha própria quando tinha a sua idade!


O meu lado familiar paterno é de origem Judaica, sem, contudo, nenhum dos seus membros ter assumido essa religião, pois todos eram ou são católicos, salvo a minha falecida tia Kika que guardava uma ambiguidade em relação aos dois lados, indo, por vezes, quase clandestinamente á Sinagoga onde mantinha boas amizades. Daí quando eu tinha 9 anos ter-me oferecido o "Exodus" de Leon Üris, e o Diário de Anne Frank, enquanto me dizia: Por mais que queiramos nunca fugimos aos nossos antepassados. Logo, é melhor que aprendas alguma coisa sobre o que lhes aconteceu, pois apesar de tudo corre-nos sangue judeu nas veias!

Foram estas palavras que me bailaram na memória, e que me fizeram regredir á minha própria infância, sensibilizar, e particularmente indignar-me, porque àquela Menina bastar-lhe-ia mais um mês de vida e teria sobrevivido aos Nazis!

Mas se assim tivesse acontecido o seu testemunho teria chegado até nós, e eu estaria agora a escrever a seu respeito?

Teresa David-fotos de postais ilustrados comprados na Casa de Anne Frank pois era proibido fotografar no seu interior.

domingo, dezembro 31, 2006

O MEU BLOG FAZ DIA 1 DE JANEIRO O SEU 1º ANIVERSÁRIO
e embora seja um lugar comum dizê-lo, parece que foi ontem.
Tem sido bom o convívio que ele me proporcionou com novas pessoas, algumas coisas até mudaram na minha vida por ele existir.
Voltou-me o prazer de escrever, de pintar, fotografar, passeei pelo meu País e não só, mas o que foi mesmo importante, foram os meses em que estive só, e encontrei sempre uma palavra amiga, maioritáriamente vinda no feminino, sem menosprezar alguns homens que sempre me trataram com enorme simpatia. Vou continuar por aqui, a partilhar os meus pensamentos, histórias e imagens, e convidando desde já todos a comerem comigo uma fatia do meu bolo virtual.

sábado, dezembro 30, 2006





AS BICICLETAS

Por vezes nem se vêem, tal a velocidade com que nos ultrapassam, conduzidas por crianças, jovens, adultos, e idosos.

Outras vezes jazem encostadas ás amuradas ou gradeamentos dos canais, em descanso merecido.

Também se vêem penduradas, como prestes a desabar na água, não fosse a forte corrente que as prende.

Amesterdão não seria a cidade que aprendi a gostar, se elas não existissem, presentes em todo o lado onde nos movimentamos.

Alguns passeiam os cães a correr, pendurados pela trela, ao lado dos donos que pedalam com todo o vigor das suas pernas,

Também existem as que têem um pequeno caixote incorporado, em madeira, onde os bébés apenas com o nariz escarlate visível, se aconchegam na pressa.

Mas o que é realmente singular, é ver os casais de namorados que pedalam, lado a lado, vagarosamente, com as caras vermelhas do frio e da paixão, com as mãos entrelaçadas, num equilíbrio absoluto de corpo e sentires.

Teresa David-fotos tiradas por mim nesta ida agora a Amesterdão/Dez.2006

quinta-feira, dezembro 21, 2006

A todos os que aqui passarem, dou a cara, para desejar um:










Teresa David

terça-feira, dezembro 12, 2006



OS PAPAGAIOS DO DESERTO DAS IDEIAS

Vivem das aparências. Os mais guarnecidos de cor empertigam-se, e sacodem as suas plumas Versace ou Gucci.
Aqueles, cuja falta de dinheiro não permite tal plumagem, encolhem-se em ramos mais pequenos e discretos. Todos calados á espera.
As frases feitas, ecoam na voz metálica dos poderosos, perturbando o silêncio.
É então que uma voz fina se espalha pela árvore, quando um pequeno recita palavras, e enche o deserto de poesia, a fazer calar desta forma, os lugares comuns dos pobres de espírito.

Teresa David-aguarela pintada por mim

terça-feira, dezembro 05, 2006



MATRIARCADO

Enorme, maior que os machos, deixa-se fecundar para construír o seu exército de obreiras.
E milhões se irão unir para trabalhar com afã no laboratório do mel.
Os zangaões, seres inferiores, proíbida a entrada na fábrica, esvoaçam á sua porta, na longa espera de serem convocados pela Rainha. É indiferente que morram depois da cópula. Já não servirão para mais nada!
A Rainha, na sua Majestade, sobreviver-lhes-á mais vinte e cinco anos, nos quais irá procriar, incessantemente, as fêmeas laboriosas, resistentes, que dedicarão o seu mês e meio de vida, na faina constante e rotineira, entre a recolha da matéria prima, de flor em flor, e as tarefas na colmeia, pois a produção nunca pode parar.
Teresa David-Aguarela da árvore pintada por mim e foto retirada da Net

sábado, dezembro 02, 2006


Após uns dias de ausência devido ao meu computador ter dado o berro, e agora com uma mother board nova e outros componentes, aqui estou de volta:

O MUNDO É UMA MAÇÃ

O Mundo é uma maçã que todos querem trincar, e acabam por apodrecê-la na sua ânsia de grandeza.
Lançam-lhe bombas que matam inocentes, impestam-na com químicos poluentes, e lamentávelmente, nunca veremos essas larvas aspirarem a serem borboletas esvoaçantes para embelezar o Planeta.

Teresa David- aguarela pintada por mim

sexta-feira, novembro 24, 2006




MULHER-ARANHA
Aranha fui, pessoa me tornei.
As longas pernas deixaram de tecer,
e apenas duas restam para avançar na vida.
Olho com saudade as tessituras que me escondem
de olhares intrusos, quando me aninho no canto.
Miro os móveis que adornei e se espalham por aí.
Fito-as, e fito-me no aspecto humanóide que adquiri.
Já aranha não sou,
resta-me a nostalgia, quando olho a teia,
que teimosamente sempre reaparece
no tecto da sala.
Teresa David-fotos de rendas feitas por mim

terça-feira, novembro 21, 2006







DIÁLOGO DE MULHERES Á COMIDA E Á BEBIDA


Hoje não vou comer só! Mesa posta aguardo a chegada de uma amiga para comermos, e abrirmos os corações, como tão bem as mulheres sabem fazer, sem temor de serem tomadas por seres frágeis, como os homens tanto temem. Não todos, nem sequer sou uma feminista feroz, mas sim alguém que preza o feminino, e a comunhão de sentires tão particulares ao nosso sexo. E neste jantar homenageio todas as mulheres que no último ano têm sido tão presentes na minha vida, dando-me amizade, solidariedade, e não deixando sobretudo que me sinta só, pois sei que do outro lado do écran, do telefone, algures, mais próximo ou mais longe geográficamente, tenho sempre alguém no feminino com quem sei poder abrir-me incondicionalmente sem medo de ser mal interpretada, ou traída.
Ergo então a minha taça repleta de um bom vinho de reserva, sim, o vinho, tem de ser sempre de qualidade, a todas aquelas que tão importantes têm sido para o meu mais recente viver. Bem hajam, e recebam daqui um beijo do tamanho do Universo.
Teresa David

quarta-feira, novembro 15, 2006



















GUERREIROS DA ÁGUA
Enfrentam as gigantes que os tentam engolir.
Caem, mas desprovidos de medo voltam a erguer-se
até vencerem a fúria da água,
e serem transportados em velocidade vertiginosa
para terra firme.
Teresa David-fotos que tirei na Costa da Caparica neste Outuno ainda quente

segunda-feira, novembro 13, 2006



CONTOS DE FADAS

Porque me contaste toda a infância, contos de fadas, todos diferentes cada noite, mas sempre, sempre, com um final feliz?

Porque me escondeste que as pessoas podem ser infelizes, e sofrer de dor?

Porque nunca me esclareceste, que os príncipes e as princesas, escravizavam pessoas para viverem faustosas vidas?

Porque nunca me deixaste ver que a miséria está em todo o lado, e eu não a conseguia ver dentro da redoma onde tu me colocastes?

PAI, revisita-me no meu dormir, e conta-me todos os contos de fadas que ficaram por inventar.

Teresa David-foto de meu pai e eu

sexta-feira, novembro 10, 2006

MONÓLOGO HESITANTE COM UMA REFEIÇÃO, OU, MOMENTOS QUOTIDIANOS
Sempre gostei da partilha de ideias e sentires á mesa de refeições. É aí que as exaltações dos sabores, geralmente, nos levam a conseguir comunicar melhor com os outros.
Há quem faça bons negócios á mesa.
Há quem comece uma relação amorosa com elementos picantes, só porque a comida lhe caíu bem!
Mas também pode existir a solidão, que se minimiza, no meu caso, em transportar os alimentos da mesa para seis pessoas, para uma bem mais pequena, plantada em frente á TV, acompanhar a refeição com um filme que apetece ver, que se coloca no DVD, e que se acaba por meramente olhar, enquanto os pensamentos vogam para os lados do nosso interior, remexendo ou esburacando algumas feridas, ou mais optimisticamente relembrar coisas agradáveis que aconteceram, ou fazer projectos para a vida.
Será uma solução para não ter de enfrentar o vazio de uma mesa repleta de espaço deixado pelos ausentes.
Teresa David-foto minha

quarta-feira, novembro 08, 2006

BASCULHANDO

Despejei as malas antigas sobre a carpete, e delas surgiram farrapos do passado, mais ou menos próximo.
Números de telefone escritos em pedaços de toalhas de papel, cujos corpos correspondentes já são nuvens que passaram, ou buracos negros na memória.
Remédios que pela sua ineficácia ficaram por tomar.
Cartões de pessoas impossíveis de conseguir hoje identificar.
Isqueiros que ainda funcionam, e são sempre benvindos para quem, como eu, ainda não conseguiu afastar-se do vício do tabaco.
Bâtons meios usados, cujas tonalidades divergem da actual, mas porquê não os acabar?
Talões, muitos, de Multibanco, com verbas que há muito já não consigo alcançar!
...E um perservativo ainda dentro do prazo de validade, que foi esperança de algum encontro de corpo que não aconteceu, e quiçá seja altura de usar!

Teresa David-foto minha

sábado, novembro 04, 2006

UM DIA CINZENTO
Pela minha janela entra um cinzento invernoso
que me gela os sentidos
A casa ficou pardacenta, com sombras
que se agigantam pelas paredes

O silêncio é meramente quebrado
pelo assobio do vento

Uma ligeira tremura
chocalha o meu corpo quente
acabado de despertar
de um sono convulso
É hora de reagir, sair do torpor,
e tentar colorir o negrume do dia
Teresa David-foto minha tirada pela minha janela

quarta-feira, novembro 01, 2006

FLAMENCO

Corvos erectos

Serpentes ondulantes

Tropel de cavalos

Galopar de mãos

Sons vibrantes

Corpos revoltos

Emoção orgástica

Mescla sensual

Do corvo a bicada

Da serpente a bifurcação

Andante crescente

Pés de tantãs

Em luta tribal


Teresa David-1997 -foto que tirei em Granada no mesmo ano e agora trabalhada no photoshop

domingo, outubro 29, 2006




CAMINHOS

Quando o corpo se estende

é cansaço

mas também pode ser

o Amor

corro e percorro

o esguio do teu corpo

atravesso o deserto

da rota da Seda

Cedo e deslizo

nas dunas de areia

Canso e descanso

na beira do oásis

Caio no sonho

do sono tranquilo

Durmo e desperto

no dia que vem

Teresa David-1985

Fotos de Michael Martin retiradas do livro "Desertos de África"

sexta-feira, outubro 27, 2006


VACILAÇÕES
Quero o que quero
sinto o que sinto
vivo, vacilo, insisto, desisto,
e persisto no querer...
Assim, porque, assim
eu sou vacilante
no hoje, no sempre
por aqui adiante
Estou e não estou
estar é ficar
futuro de mulher
é não claudicar
Amar o que ama
querer o quer
destino de ser
sempre uma mulher
mulher de desejo
mulher de prazer
escolher a vontade
de estar e ficar
fugir ou morrer
perder ou ganhar
mas sempre viver
Teresa David-1985 , foto tirada por mim em Barcelona

sábado, outubro 21, 2006


A CAMA DESFEITA
É com o corpo que me entendo
que exploro os meus anseios
quando as pernas se enroscam
e os braços se enleiam
Das bocas entreabertas
com o peito a arfar
soltam-se gemidos, palavras
enquanto me olhas nos olhos
sem deixar de respirar
É na expressão de um rosto
que a exaltação mais se sente
nesse quase desfalecer
nesse desejo fremente
No final da jornada
com a cama toda desfeita
fica a ternura, o enlevo
de uma mulher satisfeita
Teresa David - foto minha

sexta-feira, outubro 20, 2006



OS POMBOS DO POETA

Teresa David-Foto minha

segunda-feira, outubro 16, 2006




OPIATO

Entre a tontura e a vertigem

Antevi o teu enleio

Avancei, esmoreci,

E desisti pelo meio

No meio de tanto torpor,

Nem mãos, pernas, cabeça,

O meu olhar alcançou,

Apenas um pormenor

Consegui reconhecer,

Muda, queda, em terror,

Achei que ía morrer,

Pois seu pé se ergueu,

E afinal era um pássaro

Cantando seu apogeu

"Ópiometria" da névoa

Que nos faz entorpecer,

A falsa paz se instala

Na vontade de viver.

Teresa David - foto minha do Mar, e pés retirados da Net

sexta-feira, outubro 13, 2006

DESPERTAR

Abrir os olhos, erguer,
primeiros passos na casa,
um cigarro em jejum,
regresso á luz do dia,
regresso a um dia comum

A beata no chinelo,
Com um olho só aberto,
É o vislumbrar do caos,
é constatar que o filho
ainda está menos desperto

A seguir vou-me sentar,
para descansar do descanso,
planificar as tarefas,
olhar o sol reflectido,
na alva parede do terraço,
mas agora que só estou
não haverá nenhum abraço.

Nem bom dia matinal,
miro o gato que me olha,
e penso:
Está tão velho o animal!

A beata no chinelo
é recordação guardada,
nem o chinelo tem pé
nem a beata foi fumada!

Teresa David-foto minha

quarta-feira, outubro 11, 2006



Plácidamente no seu cativeiro, Camilo, rasgou a madeira, com suas unhas, para escrever a sangue, o nome da amada.

Teresa David

foto tirada por mim na cela onde Camilo esteve aprisionado no Porto.

segunda-feira, outubro 09, 2006



PÉGADAS

Caminhei pela praia,

numa jornada sem fim,

á procura de alguém,

para me lembrar de mim.

Após muitos quilómetros

sem ninguém encontrar,

exausta, derrubada, desisti,

e fiquei olhar o mar,

que esse nunca foge dali!

Teresa David

segunda-feira, outubro 02, 2006



TEMPESTADE DE SENTIDOS

Quem dera ser orvalho

quem dera ser geada

para te inundar de mim

numa qualquer madrugada.

Poderia ser o estio

ou agasalho

perto então ficaria

desse corpo desejado

sem sequer dares por isso

nem mostrares nenhum enfado

Quem dera ser vento

ou chuva

quem dera ser um raio

cairia sobre ti

mais forte que o orvalho

Teresa David-foto minha de uma pré-tempestade