

OS GATOS
A SOLITÁRIA-aguarela por mim pintada



PEITO ARDENTE
Não são de cão as garras que se enterram no meu peito desnudo.
Olho, indiferente, o sangue que escorre peito abaixo, aquecendo a barriga com um quente viscoso.
Alheia, estática, o olhar fixa-se num ponto existente em nenhures.
Estado comatoso, sentada, transida de frio, á espera do beijo encantado que me poderá despertar!
Teresa David - quadro de Lucien Freud

AS COFFEE SHOP
Gosto muito de cafés, pastelarias, cervejarias, restaurantes, em suma, sítios onde se possa comer ou beber, de preferência em qualidade, e sem excessos.
De dia, para dia, sinto em Portugal mais dificuldade em habitar tais sítios sem me sentir completamente desconfortável. Ir para o café beber a bica, e tentar ler um livro é algo quase impossível, pois mesmo que tenha apenas uma ou duas pessoas, elas lançam as suas vozes até aos limites das cordas vocais, por detrás do balcão as chávenas gritam em encontrões entre si, e os empregados vociferam a raiva de serem mal pagos, suponho.
Ainda encontro um que outro restaurante mais calmo, mas se tenho o azar de haver aniversariantes logo a confusão e gritaria começa, ao ritmo dos copos que vão sendo despejados.
É então que recordo as minhas idas á Holanda, onde também se come e bebe, mas ninguém se atreve a altear a voz, pois seria logo olhado ferozmente por alguém, uma vez que o civismo já faz parte do quotidiano daquela gente, sem escolha de classes.
Indo mais longe não resisto a relembrar as coffee shops, que mal se cruza a porta ficamos pedrados pelo cheiro intenso da mistura do haxixe com a marijuana, mas onde se respira silêncio e paz. E questiono-me: Para quê reprimir e ilegalizar seja o que fôr, se numa sociedade civilizada em que existe o respeito uns pelos outros, ninguém por auto-repressão se atreve a incomodar os outros?
Acresce ainda que enquanto as drogas leves tornam as pessoas pacíficas, o alcóol que somos campeões de consumo, torna muita gente briguenta e completamente anti-social,
Não estou a fazer a apologia do consumo, pois apesar do tabaco que é legal ser tão ou mais deletério que as drogas leves para a saúde, para mim a base de tudo é o ânsia de ainda conseguir ver um dia, as pessoas neste País respeitarem as escolhas umas das outras sem agressões ou preconceitos bacocos.
Mas cada vez me parece mais uma utopia!
Teresa David-foto minha de Amesterdão

OS CORVOS DE AMESTERDÃO
Ao passear-me pelas ruas de Amesterdão comecei a encontrar amiúde corvos empoleirados em árvores, plácidos, quase sem mexer, e nos arredores da cidade a caminharem lentamente pelos relvados.
Isso fez-me andar para trás até á infância, e recordar, os meus 8 anos, em que já partilhava a leitura do jornal com meu pai, que me dava sempre, além dos suplementos infantis, a página onde se encontrava a crónica de Leitão de Barros no Diário de Notícias, de nome "OS CORVOS", enquanto me dizia: Cultiva o sentido de humor que é uma das melhores armas que poderás ter ao longo da vida.
Eram sátiras de costumes, de uma finura de linguagem, que hoje, infelizmente, raramente se encontra nos cronistas contemporâneos. Embora ele tenha sido cineasta e eu tenha visto, em reprise, os seus filmes, nomeadamente, A SEVERA, ALA ARRIBA, e principalmente CAMÕES, onde uma das minhas tias maternas, agora com 91 anos, foi buscada a casa pessoalmente pelo Leitão de Barros, para participar num pequeno papel no filme,mas a sua gigantesca timidez e preconceitos, fizeram que lhe passasse ao lado uma carreira de actriz, são as suas crónicas que me ficaram a dançar na memória através dos anos, e provocaram recordá-lo quando decidi falar dos corvos de Amesterdão, pois os de Lisboa, só se encontram nos nossos dias na bandeira da edilidade!
Daí não resisto, e deixo aqui uma das suas crónicas, que infelizmente, diria mesmo, lamentavelmente, continua actual, apesar de decorridos quase 50 anos sobre a sua publicação:
VISTORIA
Um dos aspectos simbólicos das mais altas tradições peninsulares é o cuspir no chão. "Se proibe escupir en en suelo", "É proibido cuspir no chão" - são dísticos que não dei fé de ver afixados em quaisquer outros idiomas senão nos de Camões e de Cervantes. E diz-nos uma correspondente: "Na Suiça não há escarradores". A simples necessidade de fazer, por habitante, uma "capitação" da saliva é, por si, um sintoma de que permanecemos fiéis a uma histórica herança de nossos maiores. Há tempo fez-se, ingenuamente, a campanha de "engolir em seco". Chegou-se a pôr um polícia na estação do Rossio, de guarda ao cuspo. Passado, porém, certo tempo, o caso esqueceu, comos os enredos dos filmes de cinema, E o polícia foi o primeiro a cuspir, num hábito puramente profissional.
Desafio aqui alguém a dizer-me que já não vê ninguêm cuspir no chão, e com requintes de malvadez, escarros bem puxados dos seus âmagos!!!
Teresa David - aguarela minha baseada nos corvos vistos em Amesterdão


ANNE FRANK HUIS (CASA)
Sempre fui um pouco esquiva a visitar casas/museu com cargas históricas de acontecimentos que mexeram comigo. Esta casa seria uma delas, daí não a ter visitado na primeira vez que estive em Amesterdão.
No entanto, desta vez afoitei-me, e quando entrei no esconderijo da Família Frank, em particular no quarto que ela habitara, cujas paredes forradas com fotos de estrelas de cinema da época, e estampas de flores e bichos, nos transportam para um Universo de adolescente cheia de sonhos que ficaram por cumprir, e com alguma imaginação poder-se-á visualizar as suas mãos a colar tais adereços, imagens estas que a própria menciona no seu diário quando diz: Assim o quarto fica mais acolhedor, menos pequeno!
Era a forma de abrir uma janela para o exterior - digo eu.
Pelas várias dependências encontrei ecrãs onde se podia assistir aos testemunhos de várias pessoas que passaram por aquela casa, como a secretária, e nomeadamente o seu Pai, que conseguiu ser salvo do Campo Concentração pelas Forças Aliadas.
Mas, mais do que tudo, o que realmente me fez engolir uma lágrima mais afoita, foi ver o original do diário, escrito com letra típica de menina, e tão semelhante á minha própria quando tinha a sua idade!
O meu lado familiar paterno é de origem Judaica, sem, contudo, nenhum dos seus membros ter assumido essa religião, pois todos eram ou são católicos, salvo a minha falecida tia Kika que guardava uma ambiguidade em relação aos dois lados, indo, por vezes, quase clandestinamente á Sinagoga onde mantinha boas amizades. Daí quando eu tinha 9 anos ter-me oferecido o "Exodus" de Leon Üris, e o Diário de Anne Frank, enquanto me dizia: Por mais que queiramos nunca fugimos aos nossos antepassados. Logo, é melhor que aprendas alguma coisa sobre o que lhes aconteceu, pois apesar de tudo corre-nos sangue judeu nas veias!
Foram estas palavras que me bailaram na memória, e que me fizeram regredir á minha própria infância, sensibilizar, e particularmente indignar-me, porque àquela Menina bastar-lhe-ia mais um mês de vida e teria sobrevivido aos Nazis!
Mas se assim tivesse acontecido o seu testemunho teria chegado até nós, e eu estaria agora a escrever a seu respeito?
Teresa David-fotos de postais ilustrados comprados na Casa de Anne Frank pois era proibido fotografar no seu interior.

AS BICICLETAS
Por vezes nem se vêem, tal a velocidade com que nos ultrapassam, conduzidas por crianças, jovens, adultos, e idosos.
Outras vezes jazem encostadas ás amuradas ou gradeamentos dos canais, em descanso merecido.
Também se vêem penduradas, como prestes a desabar na água, não fosse a forte corrente que as prende.
Amesterdão não seria a cidade que aprendi a gostar, se elas não existissem, presentes em todo o lado onde nos movimentamos.
Alguns passeiam os cães a correr, pendurados pela trela, ao lado dos donos que pedalam com todo o vigor das suas pernas,
Também existem as que têem um pequeno caixote incorporado, em madeira, onde os bébés apenas com o nariz escarlate visível, se aconchegam na pressa.
Mas o que é realmente singular, é ver os casais de namorados que pedalam, lado a lado, vagarosamente, com as caras vermelhas do frio e da paixão, com as mãos entrelaçadas, num equilíbrio absoluto de corpo e sentires.
Teresa David-fotos tiradas por mim nesta ida agora a Amesterdão/Dez.2006







CONTOS DE FADAS
Porque me contaste toda a infância, contos de fadas, todos diferentes cada noite, mas sempre, sempre, com um final feliz?
Porque me escondeste que as pessoas podem ser infelizes, e sofrer de dor?
Porque nunca me esclareceste, que os príncipes e as princesas, escravizavam pessoas para viverem faustosas vidas?
Porque nunca me deixaste ver que a miséria está em todo o lado, e eu não a conseguia ver dentro da redoma onde tu me colocastes?
PAI, revisita-me no meu dormir, e conta-me todos os contos de fadas que ficaram por inventar.
Teresa David-foto de meu pai e eu
BASCULHANDO
Corvos erectos
Serpentes ondulantes
Tropel de cavalos
Galopar de mãos
Sons vibrantes
Corpos revoltos
Emoção orgástica
Mescla sensual
Do corvo a bicada
Da serpente a bifurcação
Andante crescente
Pés de tantãs
Em luta tribal


CAMINHOS
Quando o corpo se estende
é cansaço
mas também pode ser
o Amor
corro e percorro
o esguio do teu corpo
atravesso o deserto
da rota da Seda
Cedo e deslizo
nas dunas de areia
Canso e descanso
na beira do oásis
Caio no sonho
do sono tranquilo
Durmo e desperto
no dia que vem
Teresa David-1985
Fotos de Michael Martin retiradas do livro "Desertos de África"


OPIATO
Entre a tontura e a vertigem
Antevi o teu enleio
Avancei, esmoreci,
E desisti pelo meio
No meio de tanto torpor,
Nem mãos, pernas, cabeça,
O meu olhar alcançou,
Apenas um pormenor
Consegui reconhecer,
Muda, queda, em terror,
Achei que ía morrer,
Pois seu pé se ergueu,
E afinal era um pássaro
Cantando seu apogeu
"Ópiometria" da névoa
Que nos faz entorpecer,
A falsa paz se instala
Na vontade de viver.
Teresa David - foto minha do Mar, e pés retirados da Net
DESPERTAR
TEMPESTADE DE SENTIDOS
Quem dera ser orvalho
quem dera ser geada
para te inundar de mim
numa qualquer madrugada.
Poderia ser o estio
ou agasalho
perto então ficaria
desse corpo desejado
sem sequer dares por isso
nem mostrares nenhum enfado
Quem dera ser vento
ou chuva
quem dera ser um raio
cairia sobre ti
mais forte que o orvalho
Teresa David-foto minha de uma pré-tempestade