
A um olhar perturbador não se pergunta a idade!
Teresa David-foto de mim própria (pf não me achem narcisista, mas os olhos é o que tenho de melhor na cara!)
A SOLITÁRIA-aguarela por mim pintada
O HOMEM SEM DENTES
ou mais uma das minhas histórias líquidas
Vinha meia adormecida no comboío, quando me veio à lembrança uma personagem que reencontrei, passados trinta anos, imagem de alguém que como relâmpago, ou flash, apesar de morar bem perto de mim nunca mais revi, após o fugaz encontro que passo a contar:
Estava eu em mais uma noite líquida, no mesmo bar onde encontrara "o corneta" da outra história, quando vejo subir a escada fronteira a mim, um homem de cabelo negro asa de corvo, feições correctas, mas faces encovadas pela magreza e o mirrar fruto dos anos. O azul violeta dos olhos estava rodeado de uma auréola avermelhada denunciadora de consumo excessivo de álcool.
Quedou-se ao meu lado, sem me ligar nenhuma importância, enquanto encetava conversa com o gerente sobre qualquer assunto que não me dei ao trabalho de ouvir, pois a minha memória tinha começado a trabalhar, trazendo-me dum passado longínquo aquele rosto tão próximo de mim físicamente, mas alterado pelo tempo. E foi de repente que a imagem do passado surgiu. Rememorei um rapaz elegante de cabelo negro e olhos azuis, que esperava colegas minhas na porta do colégio. Revi os placards com a sua imagem agigantada, em anúncios de perfumes ou roupas. Lembrei-me dele ainda no Monte Carlo ou no Convés, junto às tertúlias de actores do Teatro Monumental. Olhei-o na lembrança do écran da televisão em papéis secundários de filmes, ou em primeiro plano de anúncios.
E não resisti, fixei-o intensamente até atrair o seu olhar e disse: Lembro-me muito bem de si! Habitava na minha zona, a Av. de Roma, e frequentava os mesmos sítios que eu. Só que já passaram 30 anos desde esse tempo, e como o conhecia só de vista, certamente não se lembrará de mim!
Olhou-me espantado, e foi então que verifiquei que a sua boca estava completamente desdentada, o que me provocou curiosidade, pois todo o seu aspecto cuidado, malgrado a cara aparentando um notório caso de alcoolismo, não era consonante com tal desleixo. Sim, porque nos tempos que correm, só por desleixo, falta de dinheiro, que não parecia ser o caso, ou qualquer outra aberração, alguém deliberadamente se passeia desdentado!
Começámos à conversa e uma hora depois já tínhamos encontrado afinidades e tanta gente conhecida em comum que se justificava continuar a dialogar.
Mais um copo noutro Bar, e senti-me à vontade para lhe fazer a pergunta que me estrangulava a garganta: Porque é que não tens dentes?
Por uma questão de atitude! - respondeu.
Atitude?
Sim! A minha beleza física levou-me a ser perseguido tanto por homens como mulheres grande parte da minha vida. Ao contrário do que possas pensar, não são só as mulheres belas que são vítimas de assédio. Também um homem como eu fui, passa por terríveis situações para poder afirmar o seu talento, dado ser sistematicamente tratado em primeiro lugar como um objecto decorativo, e só depois, e meramente por pessoas inteligentes, como um ser capaz de pensar. E o que eu queria mesmo era ser actor dramático, não mero figurante.
Mas o que é que isso tem a ver com o facto de estares dendentado? - insisti.
Muito! Perdi por volta dos trinta e poucos os dentes todos, e como qualquer outra pessoa mandei fazer uma prótese. Nunca a usei, pois de repente ao olhar-me ao espelho percebi que encontrara a fórmula para resolver o meu problema. Sem dentes as pessoas que se aproximavam de mim era mesmo devido ao meu "eu" mais profundo lhes interessar, dado que a falta de dentes, óbviamente, me retirava grande parte dos meus atractivos físicos. Por outro lado, nessa altura também elegi como companhia preferida a bebida, tendo passado a comer pouco e a beber muito, pelo que os dentes passaram a não ser tão necessários.
Embora habitualmente seja faladora, calei-me, ficando a flutuar entre as palavras acabadas de ouvir e a lembrança daquele rapaz lindo, que lembrava sobremaneira o Alain Delon, que todas nós não resístiamos a perseguir com o olhar, quando por nós passava, e o homem de cinquenta anos, desdentado, olheirento, escavacado, com o qual conversei e bebi copos até às nove da manhã duma madrugada tépida de Primavera.
Teresa David quadro de Seurat
Desde que me conheço, mais concretamente desde os três anos, que vivo em cafés e restaurantes. Este hábito foi adquirido através de meu pai, homem bem falante, devotado de tertúlias, que a partir dessa idade me achou já capaz de o acompanhar junto da sua roda de amigos. Claro que eu adorava, porque era mimada por todos, com chocolates, rebuçados e outras guloseimas afins.
Foi nesses sítios que aprendi a calar, e a olhar em redor. E comecei a apreciar ver os tiques das pessoas, as suas atitudes, o que consumiam, enfim, ser uma pequena observadora.
Com o correr do anos o hábito não se perdeu, e num desses inúmeros locais por onde já passei, conheci uma figura singular. O meu grupo de amigos tinha-se atribuído a alcunha de "o corneta", pois a sua entrada no café nunca passava despercebida, tal o volume da sua voz de estridência metálica. Era baixote, anafado, assemelhando-se bastante ao Vasco Santana. As suas conversas versavam preferencialmente o futebol, e quando para nosso azar dava algum jogo na televisão, acabávamos por ter de sair, sob risco da integridade do nosso tímpano ficar ferida. Contudo, nunca sentimos nenhum sentimento agressivo em relação a ele, devido à sua aparente alegria de viver que partilhava "altamente" com os outros.
Uma noite, das muitas que me apetece sair solitáriamente, e ir a algum bar beber um copo, olhar os outros, ou conversar com alguém que apareça meu conhecido, ou não, mas que sirva para trocar ideias, deparei com o corneta, muito solitáriamente encostado ao balcão. Nesse local tocava-se jazz e ele parecia absorvido de tal forma pelo som que nem me via. Embora a minha relação com ele nunca tivesse ido além dum aceno de cabeça e uma boa tarde, um pouco entre dentes, decidi encostar-me igualmente ao balcão e entabular conversa.
Curiosamente, é bastante normal sem grande esforço, e particularmente na noite, muito mais propícia ao abrir dos sentimentos, ter gente a desbobinar-me as suas mágoas. Logo, ao cabo de pouco tempo fiquei a saber que era um quarentão solteiro que vivia com uma mãe idosa e decrépita, a quem prestava assistência quase permanente, tal o estado em que a senhora se encontrava. Ouvi-o atentamente e solidária, sem proferir palavra, pois este tipo de situações deixam-nos sem grande capacidade de resposta.
No entanto o que realmente retire deste encontro foi, quando em jeito de desculpa, me disse: Sabe, as pessoas devem pensar que sou alegre quando me vêem a beber as minhas cervejolas. No entanto, aquele bocado que estou no café, é o único escape do meu dia, entre o trabalho, e tratar da minha pobre mãe.
Até hoje nunca mais tornei a ver o corneta, mas soube que pouco depois desse encontro morreu de enfarte, deixando a "pobre mãe" à mercê da tenebrosa assistência pública.
Teresa David
ESTRANHA FORÇA
Por vezes pergunto-me qual
a estranha força que me move.
Quando o dedo do pé dispara em dor
salto em vez de parar.
A anca paralisa e ergo a perna.
A cabeça estoira-me, descaí aos joelhos,
e chuto-a no ar,
não por ser futebolista,
apenas para a repôr no lugar!
Sentir que respiro
sem ter o peito a arfar,
já me chega de momento
para me poder alegrar.
Olhar a onda que se enrola,
uma gaivota que esvoaça,
uma criança titubeante
que a tenta agarrar,
um gato vadio nas rochas
quue não pára de miar,
são coisas suficientes
para me apaziguar.
Ao escrever estas linhas
outra dor aparece,
o artrítico polegar,
provoca tal incomódo,
que o pensamento enegrece.
Como um cão saído de água
sacudo mais esta dor,
páro de escrever
para o corpo
se recompôr.
Mais calmo, menos dorido,
o que há agora a fazer?
Ir ouvir um concerto,
dançar até amanhecer
Ver gente à minha volta
sem os querer conhecer!
Ficarei distraída
sem pensar em tais horrores,
porque como meta de vida
propus-me não ceder às dores!
Teresa David Imagem - Hercules de Piero della Francesca