Quarta-feira, Maio 20, 2009


O Instituto Piaget fez 2 concursos poéticos, não sei se já terá feito muitos mais, mas em 1993, salvo erro de data, mas deve ter sido esta, convidaram o meu filho mais novo na altura com 10 anos para participar, já que as idades iam dos 2 anos, sim 2 anos, até aos 15. Os títulos dos livros anteriormente publicados a este, cujo nome é O LIVRO É UMA HISTÓRIA COM BOCA, são todos um achado e, atribuídos geralmente pelas crianças mais pequeninas, como por exemplo os seguintes:

Volume I - EU MORO NA MINHA MÃE

Volume II -TROUXE-TE UM BEIJO NO BOLSO

Volume III - SE EU FOSSE LUA, FAZIA UMA NOITE

estes três pertencentes ao primeiro concurso.
Poderia postar agora o poema do meu filho mas ficará para mais tarde porque me apetece mais partilhar as preciosidades das crianças de menor idade tais como:

Teresa Alexandre de Mirandela
2 anos

AO PASSEAR PELA RUA EM OBRAS COM BURACOS:

- Ó Mãe, olha a estrada tem as janelas abertas

O sol está a lavar as mãos
despir-se, tomar banho e
foi á praia.

NUM DIA DE CHUVA

Ó Mãe
as nuvens estão a chorar...
porque o sol não lhe abriu
a porta para elas entrarem.

O Sol da noite dorme
porque a lua está acordada
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Cláudia Inês Silva Guerra
2 anos e oito meses
Lisboa

SABORES E CORES

As uvas sabem
a cor do amarelo
e
A cor vermelha
sabe a vinho.


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Vânia
3 anos
Santa Casa da Misericórdia de Azurara - Vila do Conde

A PROPÓSITO DO PAI TER FALECIDO

O meu pai morreu no cemitério,
e a minha Mãe guardou o coração
do meu Pai.

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João Carlos Cassola
3 anos
Vila Nova de Xira

A CAVAR

Mãe, vem ver os homens
a martelar nas ervas.

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Nádia
3 Anos
Feijó

Tenho um beijo grande
guardado na tua boca.

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e agora para finalizar aquela que para mim tem as frases mais espantosas.

Aos 3 anos e 2 meses a 4 anos

Cláudia Inês Silva Guerra
Lisboa

VERDADE E MENTIRA

A Verdade
e
a Mentira
são tudo Mentira.

SEGREDO

Um Segredo
bem guardado
é um espanto!

SE EU FOSSE

Se eu fosse Lua
dormia sozinha

Se fosse Sol
dormia com as luas todas.


Fico por aqui porque esta madrugada parto para a Madeira por 5 dias. Quando voltar publicarei mais algumas pérolas das crianças.

Teresa David

au

Terça-feira, Abril 14, 2009

foto retirada da net


LE ROUGE


Entre a desistência não desejada


o tinto ressurge,


com o branco a desfazer-se em cinza.


O vidro tinto pelo néctar


a palavra que se diz


ou balbucia


A vida paralela


de quem deseja devorá-la.



Teresa David



LIQUIDO E ROSAS


Nos copos despejados


a cumplicidade cresce.


Enfeito-me de ar e gelo


praticando o frio


no morder do sorvete.


A cumplicidade continua


nas 21 rosas


que me tombam no regaço.



Teresa David





Quarta-feira, Abril 01, 2009

foto retirada da net
O FUNERAL

Ângelo olhou para o espelho e viu as longas melenas níveas a aflorarem os ombros.

Pensou:- Tenho de ir ao barbeiro!

E se bem pensou logo o fez.

Sentado na cadeira ao som da tesoura e do ligeiro ruído provocado pela queda dos flocos de neve, começou a pensar que a idade já avançava, a vida excessiva era de risco e que detestaria dar trabalho aos outros com a sua morte.

Com a cabeça mais leve, mas determinado, dirigiu-se de imediato a uma Agência Funerária que viu na mesma rua.

Bom dia, pode mostrar-me o catálogo dos vossos serviços fúnebres? - perguntou.

O empregado vestido de preto e com o cabelo repuxado para trás por gel extraforte disse: - É para senhora ou senhor, algum seu familiar?

Não, é para mim! - respondeu o Ângelo.

Embora com um ligeiro esgar de espanto, apresentou-lhe um enorme catálogo onde constavam caixões para todas as bolsas, desde os mais simples de pinho, até aos de madeiras nobres ornamentados com ferros brilhantes.

Após algum tempo de consulta o funcionário abordou-o para lhe dizer que teria de responder a um pequeno questionário:

Qual a sua idade?

Que ocupação tem?

Nesse preciso momento fez-se luz nos seus pensamentos e afirmou, olhando o homem directamente nos olhos: Poeta, e se como penso os poetas são imortais é descabido dar-lhe dinheiro a ganhar pois o mais provável é viver eternamente!

Boa tarde e passe muito bem!

Atônito, sem palavras ficou o vendedor com um braço no ar que paralisou e, o outro, agarrando o enorme cardápio da Morte.

Teresa David


Segunda-feira, Março 23, 2009

foto retirada na net

O ARMÁRIO DAS PERDAS


Como um armário o corpo deveria ter gavetas.

Nelas guardaria as mágoas fechadas á chave,

no compartimento dos sentimentos

não partilháveis.




Os ferrolhos enferrujariam


na voragem do tempo.





Restaria sempre no corpo


a pequena alfinetada


que ainda se espetaria no peito,


quando alguns rostos aflorassem a memória.




Outubro 2007




Teresa David




Segunda-feira, Março 09, 2009



NÃO AO FUNDO DO TÚNEL



As nalgas gelam

no mofo da pedra


As bombas atómicas

tornam-me o sangue verde


No delírio dos olhos

fechadamente abertos

A claridade intensa inunda-me


Não do fundo do túnel

mas de dentro de mim
Janeiro 2009


Teresa David-fotos tiradas por mim








Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009




O ROMEU

O Romeu Correia até tinha Julieta e tudo, não como amor de perdição, mas sim, como filha.
O seu afecto conjugal ia para a Almerinda Correia, que tinha sido campeã de atletismo nos seus tempos áureos de jovem de longas pernas e cabelos revoltos.
Almerinda Correia exibindo as suas medalhas
Quando se juntaram – segundo me contou o Romeu – o dinheiro era exíguo, daí quando ele recebeu o primeiro ordenado como cobrador do BNU, cobriu o corpo desnudo da mulher com as notas do ordenado. É verdade que nesses tempos se recebia em dinheiro num envelope, também assim recebi o meu primeiro salário de bancária.
Conheci-a, já no papel de companheira apagada, do seu fogoso marido que era um exímio contador de histórias carnais.
Ironicamente, já que vivo há 30 anos em Almada, foi no Café Império, junto ao elevador de Santa Justa, já destruído, para se tornar mais uma casa de hambúrgueres, que me cruzei com ele, sentado sempre numa mesa ao fundo junto á janela, onde escrevia e falava só com as suas letras.
Nem sei bem como, um dia cumprimentou-me, talvez por já me conhecer de vista, pois era assídua do local e, acabei por diversas vezes me sentar na sua mesa, para ouvir as suas histórias dos tempos que fora lutador de boxe, estas ilustradas por fotos em pose de lutador com as luvas calçadas e tudo!
Equipado para um combate a lutar em brincadeira com a Almerinda

Eu tinha na altura 18 anos e, as reviravoltas da minha vida fizeram com que só o voltasse a ver, quando, já vivia em Almada, volvidos 10 anos.
Facilmente o reencontrei em eventos ligados á cultura e percebi o respeito que a cidade lhe tinha, tanto que tem uma rua, uma escola secundária e um fórum em Almada com o seu nome.
Gostava de tomar café comigo e o meu companheiro e contar-nos aquelas histórias escaldantes que certamente não haveria muita gente a quem poderia relatar, inventadas ou não, dentre as quais destaco a da cigana que tocava castanholas quando atingia o orgasmo!
Anos atrás, mais concretamente em 1996, encontrei-o no centro da cidade de Almada, branco como a cal. Um arrepio percorreu-me o corpo porque lhe vi a morte na cara. Faleceu dois dias depois de ataque cardíaco.
A cidade ficou menos colorida.

Teresa David-fotos retiradas da Net






Sábado, Fevereiro 07, 2009





URSULA

De pequenina depressa o seu corpo franzino percebeu que a vida não seria fácil.
Seus Pais, fortemente envolvidos na luta contra o regime de Salazar, enviaram-na, por portas travessas, para a União Soviética, onde ficou a estudar e fez o Curso Superior de Canto.

É um rouxinol que o seu padrinho, Álvaro Cunhal, adorava ouvir.

Eu também.

Conheci-a, após o seu regresso em Maio de 74 a Portugal, após muitos anos de União Soviética e algum tempo em Paris, num Restaurante que explorava com o seu companheiro, sito no Pragal de nome “O Forno de Cima”. Aí falava com ela sobre as agruras da maternidade e vida doméstica, porque a Úrsula, conhecida como Luísa Basto, pseudónimo que adoptou, desdobrava-se na limpeza do restaurante, da sua casa, acudir aos 5 filhos, uns dela em comum com o companheiro e um só dele, outro só dela e do José Jorge Letria, aos cozinhados, que praticamente fazia só.

Por volta da meia-noite desaparecia, tirava o avental de cozinha, pintava-se, penteava os fartos cabelos e, reaparecia, geralmente vestida de negro, como borboleta saída dum casulo.
Mal a sua voz se lançava no ar um arrepio na espinha me percorria, bem como a todos que a escutavam. Nunca na vida até hoje, ouvi, uma voz tão límpida e potente como a dela.

Contudo, parece que nunca levou muito a sério o seu talento, porque, salvo os convites muito esporádicos para programas alusivos ao 25 de Abril, ferrete que se lhe colou á pele pelo facto de ter dado voz ao Hino do “Avante”, onde a sua sonoridade é bem notória, alguns CD gravados sem grande divulgação e o LaFéria se ter lembrado dela para fazer de Amália no Musical depois da saída da Alexandra, resume-se á sua vida doméstica.

Tentei amiúde, infrutiferamente, ver mais além da concha onde se fechava, numa cara de tragédia não contada.

Uma das últimas vezes que a vi e trocámos um mero aceno, foi no dia do velório do Álvaro Cunhal, onde estava numa fila gigantesca, incógnita como sempre, apesar de ser quase como uma filha para o falecido, que vinha ao barbeiro ao Pragal e lhe pedia para lhe comprar a roupa, porque além de não ligar nenhuma ao que vestia, não tinha o mínimo jeito para o fazer.

Tenho o seu número de telefone e ela várias vezes me disse para aparecer, no entanto, a sua forma de ser tão fechada fez com que nunca tenha telefonado, malgrado a admiração que por ela tenho.

Por vezes tento saber por onde anda a cantar, mas ninguém sabe, pelo que apenas a apanhei, por mero acaso, há dois anos, após uma ida ao teatro, onde o Mestre Relojoeiro, sobre o qual escrevi algum tempo atrás me disse, que ela estaria a cantar fado numa cooperativa na Cova da Piedade, gratuitamente, naquela noite, na sua militância constante.

Se quiserem ler uma biografia que acho bem feita acerca da sua pessoa, onde, por coincidência tem uma foto exactamente da altur em que a conheci, podem ler aqui:


Teresa David