sexta-feira, fevereiro 22, 2008

O POETA AÇORIANO

Em 1970 fazia-se óptimo teatro na Casa da Comédia, o que me levava a deslocar-me amiúde até lá, a fim de não perder pitada da sua programação criteriosa e corajosa para a época em que estávamos.
Aí vi teatro para adultos pela primeira vez. Nunca esquecerei uma peça que se tornou, na altura, algo ininteligível para mim. Tratava-se do FIM de António Patrício, representada e encenada pelos Bonecreiros. Fui sozinha e ainda por cima fiquei sentada dentro do palco envolvida por uma acção que não entendia. A segunda já consegui entender na íntegra, apesar de elaborada tinha tudo a ver com o meu sentir, tratou-se de Mulher Precisa-se de Almada Negreiros, encenada pela Fernanda Lapa, espectáculo que me emocionou e encheu as medidas.
Mas dizia eu que, em 1970, subiu á cena naquele Teatro uma peça que se me tornou inesquecível, A Dança da Morte em 10 assaltos de August Strindberg, não só pelo argumento, pelas fantásticas interpretações da Cármen Dolores e Augusto Figueiredo, já há muito falecido, mas também pela conversa que assisti após o final do espectáculo com o saudoso Vitorino Nemésio de quem já lera o Mau Tempo no Canal que muito apreciara.
Fora com uma amiga a quem chamava tia, apesar de não termos vínculos familiares, mas que não tendo sido mãe, construiu comigo uma amizade e cumplicidade que me ficou para o resto da vida na memória. Há muito faleceu, pois tinha mais 40 anos do que eu. Contudo, foi uma das amigas que mais me marcou pela sintonia dos nossos interesses, a facilidade com que com ela dialogava e também algumas reprimendas que me foram muito úteis.
Ora, a Tia Isaura tinha estado a viver dois anos nos Açores, uma vez que, o seu marido Coronel, aí fora colocado, alguns anos atrás, na Base dos Açores.
Logo, quando fomos apresentadas ao Nemésio, alguém que só conhecia da TV desses programas fantásticos, mas que, a minha tenra idade quando os vi, os tornavam quase incompreensíveis e, ela referiu o facto, ele de imediato esticou o dedo e na sua forma particular de se exprimir com tanta expressividade lhe perguntou:
AH! Então de certeza que conheceu a minha prima Micas!
A Tia Isaura engasgou-se, mas como mulher educadíssima que era reprimiu o riso daquela espontaneidade e apenas respondeu:
Sim, talvez tenha conhecido, mas só pelo nome é-me difícil de dizer!
Ele tergiversou de imediato para a analise da peça, contou-nos inúmeras historias açorianas, enquanto eu, me limitava a estar calada que nem um rato a sugar aquelas mãos que também falavam, os lábios carnudos que se movimentavam esticando-se ou comprimindo-se amiúde, o corpo tapado com um fato mal amanhado e a melena negra que lhe esvoaça na cabeça a cada gesto.

Teresa David-Imagem recolhida da Net

segunda-feira, fevereiro 18, 2008


EPILOGO OU CURTA PASSAGEM POR TANGER

Quando chegámos a Tânger, saídos do Ferry Boat, bastante confortável, e, após uma vistoria cerrada ao carro, onde uma curiosidade ocorreu, porque, como mulher condutora, sou cuidadosa, mas caótica em alguns pormenores, daí ter na bagageira um saco de rebuçados de menta, já derretidos pelo calor, que os fiscais enfiaram na cabeça se trataria de qualquer droga. Acabei por pegar no saco, tirar o papel colado sobre um rebuçado que já não era mais do que um matéria viscosa, passá-lo para a mão do Guarda Fronteiriço só para chatear e sujá-lo todo. Surtiu efeito, porque com a mão colado ao rebuçado nos fez sinal para seguirmos!
Alguns quilómetros adiante, com a barriga já a dar horas, vimos um restaurante com bom ar, que no exterior tinha um parque infantil e um camelo que servia somente para a fotografia. Pormenor importante a reter: Foi o único camelo que vi em Marrocos.
Logo não poderia deixar de posar junto dele. Foi nesse restaurante que comi a primeira Tágide da minha vida e também, convenhamos, a melhor confeccionada, o que me fez pensar que fome não iria passar por aquelas bandas. Tanger foi uma grande desilusão, talvez ainda maior que Rabat. Como primeira cidade que visitava não esperava encontrar a imundície que vi e as minhas narinas também, ficando mesmo á beira do vómito. Mais tarde acabaria por me habituar que cada vez que nos aproximamos de uma cidade um cheiro pútrido inunda o nosso olfacto, provindo das carnes expostas ao sol, nos vários mercados.
Com o desanimo daquela abordagem citadina, nem saímos do carro, seguindo rapidamente para Rabat.
Resta acrescentar que os Ferry Boats não só são cómodos como têm bons restaurantes e bastantes lojas, em especial, ourivesarias, onde vendem as pérolas majorica, mas, igualmente, no regresso nada comprei. No percurso, ao longe vi Gibraltar. Nenhuma vontade de visitar o rochedo me surgiu, até porque, sempre o liguei ás maiores trapaças, ou não tivesse eu trabalhado tantos anos num Banco! Como balanço ficaram-me até hoje na recordação como os momentos mais interessantes, a cascata, as ostras, apesar do incómodo que tive depois, o exotismo de Marrakech e sem dúvida, Casablanca.
Creio que não voltarei a Marrocos, pois tantos outros sítios chamam a minha atenção. Contudo, ainda gostaria de ir á Tunísia, que me parece ter zonas históricas riquíssimas para visitar, praias calmas e com águas quentes, ao invés das que encontrei em Marrocos, banhadas pelo Oceano, impossíveis de lá meter o pé, por serem agrestes, geladas e talvez correr riscos de apanhar algum cadáver a flutuar!

Teresa David

terça-feira, fevereiro 12, 2008

EL JADIDA OU LA CITÉ PORTUGAISE

Para minimizar o desapontamento que Rabat tinha sido, foi bom esbarrar na Cité Portugaise, que nunca poderia deixar de visitar, a par de Mosquée, terriola bem pequena mas com o mercado mais limpo e arranjado que vi em toda a viagem, apesar de nada ter comprado.
Em Marrocos, como amiúde já citei, surgem como se de fantasmas se tratasse, homens para nos ajudar a perceber os sítios, e, claro, para nos servirem de guias. No entanto, apenas em Marrakech pagámos a um cicerone.
El Jadida, foi fortificada e habitada pelos portugueses no início do século XVI. Curiosamente, até hoje, os marroquinos guardam uma ternura por nós, vá-se lá saber porquê, porque invasor é invasor! Ao contrário têm um desdém imenso pelos Espanhóis. Contudo, a nossa marca permaneceu nessa cidade, onde pude ver canhões portugueses, a cisterna construída por nós, várias referências ao nosso País, como na citada cisterna e um salão de chá com o nome “La Portugaise”, onde bebi aquela admirável poção de menta que me põe de bem com o estômago e o Mundo. é curioso o pormenor deste postal da cisterna por ostentar uma guitarra como simbolo de Portugal
No ano passado aquando das minhas andanças pela Andaluzia consegui adquiri-lo em Granada e tenho poupado ao máximo para esticar o prazer de o ingerir por bastante tempo, até porque, não sei, quando poderei voltar a comprá-lo.

Teresa David-fotos minhas

sexta-feira, fevereiro 08, 2008



RABAT
Apesar de ser a Capital de Marrocos, foi de longe a cidade que achei mais desagradável, salvo um ou outro pormenor que a seguir contarei, por inesperado e diferente de tudo que já vira.
A cidade é fortificada, logo á entrada pareceu-me que seria bela, mas não. O cheiro exalado da zona do suck era pestilento e a miséria visível em cada esquina que cruzava.

No entanto, o centro, onde fiquei instalada num hotel que no terraço tinha uma vista panorâmica sobre a Avenida que dominava a cidade, com a Mesquita no topo dela, era aprazível e confortável, com bons restaurantes e esplanadas a contrastar com outras zonas bem cinzentas e sujas.
O Mercado nada tinha de especial, aliás, nada comprei em Marrocos, salvo uma túnica bem fresca para enfrentar o deserto. Nas feiras do Artesanato em Portugal, nos stands marroquinos tudo é mais barato do que in loco, onde tentam esfolar os turistas até ás entranhas. Talvez também tenha ficado mal impressionada com os mercados, não só pelo cheiro e sujidade, mas também porque dei uma queda feia que só por milagre não me deixou partida aos bocados!

Rabat tem praia e reside aí a única particularidade da cidade. Dum lado poder-se-á apanhar sol estendido na areia ou numa esplanada agradável, mas mesmo ao lado, passando uma amurada, deparamo-nos com o cemitério na areia, coisa que nunca pensei existir em parte nenhuma do Mundo! Mas em Marrocos, pelo menos em Rabat, os mortos tal como os namoros de verão ficam enterrados na areia, o que me pareceu, seria pouco respeitoso, espojar-me de bikini sobre o que deles resta.

Daí ter sido uma visita quase relâmpago onde apenas ficámos de um dia para o outro, zarpando rapidamente rumo a Casablanca que era a próxima no novo roteiro marroquino.

Teresa David-fotos minhas















quarta-feira, janeiro 30, 2008



CASABLANCA

Esta é sem dúvida a cidade marroquina mais europeia que visitei. Também foi a única onde nos atrevemos a sair á noite. Daí surgiu uma história bastante curiosa que contarei mais adiante.
Muito limpa, luminosa, e com pombos, foi onde me aconteceu a única contrariedade da viagem. Ao regressar do almoço tinha uma roda do carro bloqueada. Sim, curiosamente em Marrocos, em 1999 já bloqueavam os carros! Paga a multa que não me lembro se foi cara ou não, mas também não é assunto relevante, passeámo-nos pela cidade.Vários alertas me tinham sido dados, como já referi, entre eles, nunca beber água senão de garrafa, nem sumo de laranja que vendem em carrinhos de mão, feito na altura, mas depois de as laranjas estarem horas ao sol intenso.
Daí o encontro com o aguadeiro apenas ter servido para tirar uma foto com o chapéu típico dele ao seu lado.

A Mesquita está implantada num espaço gigantesco, ornado de arquitectura árabe magnífica, debruçada sobre o Oceano Atlântico.
Mais uma vez as mulheres, risonhas, sozinhas, se encontravam um pouco por todo o recinto, algumas delas, repousando na amurada que tombava no mar.

As praias todas preparadas para as crianças com diversões e piscinas, sim, porque o mar é tão bravio naquela zona que não apetece muito entrarmos nele. No entanto, as próprias piscinas são cheias de água filtrada do mar e purificada.

Os hotéis onde fiquei, em todas as terras, eram magníficos. Em Casablanca não foi excepção. Contudo, houve um pormenor que começou a tornar-se bizarro de cada vez que me inscrevia na recepção. Mesmo antes de dar o passaporte, invariavelmente, perguntavam-me: Madame, vous etes juive? Finalmente em Casablanca tive a resposta a essa questão, porque, não resisti a solicitar me dissessem a razão da pergunta. Foi-me então dito que se devia ás maçãs do meu rosto serem muito características das Sabras, ou seja, mulheres judias.
Neste hotel tive o melhor quarto, de tamanho tão grande que poderiam nele pernoitar pelo menos 5 pessoas, sem colidirem umas com as outras. Tinha uma varanda onde se via a cidade, mas também a piscina, a melhor onde me banhei. Da porta do quarto se olhasse para baixo via-se o átrio, ou bar, onde se podia ao serão beber um chá de menta, aliás, esse espaço era visível de todos os ângulos interiores do Hotel.

Após um jantar num restaurante Libanês para variar das tágides que já me começavam a enjoar, tirei uma foto com um cachimbo de água, que, não fumei por temor de ficar fora de mim, quando, afinal é completamente inofensivo pois são cheios de frutos. Vim a contactar isso, com grande ironia, quando abriu há uns anos um Bar Árabe bem em frente da minha casa, onde aí, finalmente, provei o cachimbo. Também se tivesse efeitos secundários era só atravessar a rua!

Já que estávamos na zona dos bares e discotecas decidimos ir visitar a noite árabe. Começamos por um sítio turístico onde apanhei um susto quando tentei tirar uma foto á dançarina de ventre, porque, me apareceu do nada, um empregado a dizer que naquele ângulo não poderia fotografar. Não contestei, mas como curiosa que sou, tentei perceber a razão, que, aliás, era fácil de descobrir. Estavam uns ricaços árabes a consumir Whisky por detrás da bailarina, não os cacei mas sim o empregado a servi-los!


Acabei por fotografar o cantor através dum espelho para não atingir o ângulo nevrálgico, a orquestra e o dançarino que achei a maior das graças, pois, movimentava-se com um tabuleiro cheio de velas acesas e copos á cabeça.
Noite que é noite não acaba senão de dia, logo, seria impensável deixar as discotecas de fora do circuito.
E foi exactamente aí que algo de bizarro e inédito na minha vida aconteceu.
Ao contrário do que esperaria havia muitos casais, homens com as várias mulheres e homens e mulheres sós.
Sentados a mirar, particularmente, os homens que dançavam maneando-se duma forma extremamente feminina, reparámos numa mulher belíssima que nos mirava amiúde. Não ligámos, talvez fosse por sermos estrangeiros.
Eram 5 da matina quando saímos rumo ao Hotel que se situava a dois quarteirões dali. Íamos a conversar e comentar tudo o que tínhamos visto quando um táxi parou junto a nós. Dele saiu a bela mulher da discoteca, dirigiu-se ao meu amigo e disse-lhe algo em voz baixo que não consegui entender. Os olhos dele estavam a ficar malandrados e eu
curiosa. Ela voltou para o táxi e questionei-o de imediato.
Ela oferecera-se para vir para a cama com os dois, coisa que por aquelas bandas é absolutamente natural! Claro que reagi de imediato: Bem, até é chato não ires com ela que era bem bonita, mas como partilhamos o quarto ficar á porta á espera que tratasses do assunto seria um pouco humilhante não achas?
No quarto cada um na sua cama, sim porque amigo é amigo não namorado, logo, não dormi, nem estive acordada na cama com ele, ainda rimos sobre o assunto, embora ele não tivesse evitado dizer: Mas foi pena!


Teresa David- fotos minhas

















sexta-feira, janeiro 25, 2008


MARRAKECH


Marrakech, sem sombra de dúvidas, a cidade marroquina que mais me espantou pela forma de viver, costumes, e outras singularidades.


O caminho foi percorrido com uma paisagem árida onde se viam, amiúde, rebanhos de ovelhas com o seu pastor mas nenhuma vegatação para lhes servir de pasto. Os contos das mil e uma noite que preenchem o meu imaginário infantil, tornaram-se realidade perante algumas coisas que vi com os meus olhos nessa terra, onde toda a arquitectura é idêntica e de cor salmão ou rosa velho.


Nas esplanadas só se viam homens que bebiam coca-cola ou chá, conversando entre si sem alarde, nem sequer mirarem as mulheres que passavam, embora também não valesse muito a pena pois a maioria andava coberta dos pés á cabeça!
Nesta cidade encontrei o maior "souk", ou seja,mercado,de todos os sítios por onde passei. Homens passeavam pequenos macacos pela trela e outros chegavam-se aos turistas com cobras enroladas ao pescoço. Como os répteis não são decididamente uma espécie da qual me apeteça muita aproximação, qando um desses tipos se acercou de mim, parece-me que se tivesse sido conometrado o tempo da minha corrida dali para fora, estaria muito perto de uma medalha de ouro olímpica. Na debandada desembocamos num beco onde surgiu um homem a oferecer-se para nos servir de guia na visita ás lojas dos becos. Em Marrocos aparecem do nada homens a interpelarmos. Aceitámos. Primeiro descobri a gruta do Ali Bábá, depois uma farmácia de produtos farmaceuticos artesanais, donde trouxe uns unguentos que me fizeram verdadeiros milagres no corpo durante mais de 3 anos!

Finda as andanças pelas lojas de artigos artesanais, tapetes, roupas e os famosos artigos farmacâuticos, continuámos a percorrer as ruas indo ter a um serralho, com janelas de grade e cadeados, mas a porta aberta!




Embora os homens tenham o poder absoluto, vi sempre as mulheres á molhada, rindo umas com as outras, raramente acompanhadas pelos maridos, salvo quando passeavam com os filhos. Aí as crianças iam atrás de mão dada com as respectivas mães, e os pais á frente de mãos dadas com o melhor amigo. Sim, porque os homens em Marrocos cumprimentam-se entre si com 3 beijos e andam de mão dada com o melhor amigo, aliás, elas também andam de mão dada umas com as outras.



Vi-as todas tapadas, vi-as vestidas á Ocidental e até as vi a andar de mota de perna ao léu! Foi um dia cansativo daqueles em que se quer ver tudo ao mesmo tempo, tantas as coisas que nos rodeiam e nos despertam a atenção.



Daí ter passeado por todo o recinto da Mesquita, entre as pedras milenares. Pelas seis da tarde através do altifalante da torre, munido de potentes altifalantes, uma ladainha entoada a alta voz, apela á oração. Estevissem onde estivessem os habitantes paravam, descalçavam-se, ajoelhavam-se e cumpriam o seu período de reza.



Exausta de tanto andar, com a barriga já a dar horas, subi até ao terraço de um restaurante bem perto da Mesquita, onde um cozinheiro, a par com a comida típica, fazia pizzas ou qualquer prato ocidental. Pedi um bife e uma coca-cola, descansei os pés, atestei o estômago, mas não consegui evitar os olhos pendurados pelo cansaço, do qual só recuperei no dia seguinte, após um belo banho na banheira e um percurso dentro da piscina de água cálida.



No próximo dia iríamos seguir para as cascatas, onde viria a ter uma aventura por vós já conhecida.Teresa David-fotos minhas