
quarta-feira, março 21, 2007

sábado, março 17, 2007

ANDA PACHECO!
Nasci em casa, coisa já rara hoje, particularmente em Lisboa. Mas eu ainda nasci. Numa rua com três saídas que a ligam á Av. de Roma, João XXI e Areeiro.
Por lá existiam várias mercearias, frutarias, peixaria e talho, quase todos desaparecidos, nomeadamente a mercearia que irá ser alvo da minha história.
Era decorada com gavetões e estantes de madeira, tudo pintado de cor creme, nas quais através dos vidros eram visíveis os géneros que queríamos adquirir. Na parede fronteira á porta de entrada, uma guitarra Portuguesa encimava a passagem para os intestinos da loja, e uma foto do Sr. Pacheco ao seu lado, em pose de estar prestes a começar a dedilhar a mesma, todo aperaltado, ao invés da imagem desleixada que sempre tinha, ao usar uma camisola rota nos cotovelos, e desfiada nas extremidades, sem que, no entanto, deixasse de babar para todas as clientes. Era uma prova de resistência fazer compras ali, pois poder-se-ia esperar tempos infinitos até sermos atendidos, dado ser muito conversador, e a mercearia o ponto de encontro de todas as coscuvilheiras da rua. Daí, na minha casa, fazermos as encomendas pelo telefone.
Sua mulher e filho ajudavam na loja, ela mulher bem mais nova do que ele, provinciana, moura de trabalho, que por vezes se substituía ao filho, que estava encarregado de levar as compras das freguesas a casa, para desabafar as suas mágoas com as clientes, nomeadamente com a minha Mãe. Eu fingia que nada ouvia, mas ia apanhando pontas soltas aqui e ali, que me entretinha a unir para tirar o sentido das lamentações. Acabei por perceber que o Sr. Pacheco era mulherengo, não a tratava muito bem, e lembro-me mesmo de ela dizer: Comigo é um unhas-de-fome, mas com as porcas com quem anda é um mãos rotas!
Daí ter surgido uma afirmação minha engraçada, quando do alto da minha sabedoria de 8 anos de idade, a mesma que o filho do Sr. Pacheco, o Mário, tinha, quando me perguntaram o que quereria ser quando fosse grande: AMANTE!
E tem lógica, convenhamos! Se as legitimas eram mal tratadas, seria muito melhor ser amante. Ironicamente nunca o fui, mas sim mulher legitima sempre, até me cansar, ao cabo de 5 casamentos, e decidir ficar comigo própria que estaria muito melhor. Mas isso já é outra história!
Ora o Sr. Pacheco, dividia a sua vida entre a mercearia e as casas de fados onde actuava, sendo o guitarrista preferido da Hermínia Silva, sim o tal do: ANDA PACHECO! É esse mesmo, e seu filho cedo começou a seguir o exemplo do Pai no manejo da guitarra, ao ponto de hoje em dia já ter composto para grandes nomes do fado, são da autoria dele, algumas das músicas da Mariza, acompanhou ainda alguns anos a Amália, e poder viver a sua paixão sem ter de recorrer a outro trabalho que não seja a música.
Contudo, nunca esqueci o garoto, que tocava á nossa campainha, eu ia á janela, e divertia-me imenso a deitar do cima do 3º piso, o cesto das compras preso a uma corda de vários metros, onde ele metia as nossas encomendas.
Teresa David-desenho recolhido na net
segunda-feira, março 12, 2007

O ARAUTO DO FIM DO MUNDO
Como já referi em história anterior, eu trabalhava na baixa e era bancária.
Ao tempo a que se reporta este episódio que a seguir irei contar, já deixara de habitar em Lisboa, e rumara á Margem Sul, onde em 1980, data em que me mudei, se encontravam casas a preços bastantes acessíveis, para bolsas vazias, como a minha,acabada de sair dum divórcio, e com um filho de 3 anos nos braços.
Mas vamos ao que interessa!
Todos os dias atravessava o rio de barco, estava longe ainda de existir o comboio da Ponte, e tinha por companhia, não desejada, mas inevitável, um homem de ar furibundo, moreno, com o cabelo negro fortemente encaracolado, feição de uma dureza desmedida, que a sua raiva ampliava, que passava toda a travessia gritando com quantas forças tinha, profecias catastróficas sobre o final do Planeta.
Esperem, esperem, para ver! Amanhã já não estamos aqui! Hoje vai haver um tremor de terra tão grande tão grande que ninguém escapa! - Dizia.
Quando chegávamos ao Cais baixava o tom, e seguia o seu caminho a falar entre dentes.
No dia seguinte, quando não era no próprio dia no regresso a casa, reencontrava-o e lá recomeçava ele:
Esperem, esperem para ver! Vai haver um maremoto que nem chegamos á outra margem! E ainda bem, quero é que todos os f.... da p... morram!
Sim, por vezes, desfilava todo o seu vernáculo de ódios.
Comecei a perguntar a outras pessoas que viajavam comigo se sabiam quem era aquela incomodativa personagem, mas ninguém o conhecia senão do barco, e eu só pensava:
Ele tem aliança, será que em casa também faz esta lengalenga á família?
Numa vertente do meu trabalho tinha que por vezes deslocar-me a outros Bancos, e numa ida ao BNU com quem deparo? Com ele, o arauto, que muito sossegado no seu canto, empilhava uma resma de papeis. Perguntei a um colega: Ele é sossegado no trabalho?
E recebi finalmente uma explicação: É. Sei ao que se refere, pois já várias pessoas falaram das suas fúrias na rua e no barco, mas segundo alguém, que até é vizinho dele, me disse, apenas faz isso quando está sózinho, pois aqui, e em casa, é pacífico.
Mas sabe a razão de tanta raiva? - Perguntei.
Olhe, ele foi mais um dos que veio das Colónias e lá deixou tudo, e não se conforma com isso, daí esses acessos de raiva, que só consegue ultrapassar despejando tudo cá para fora.
Já o mandaram ao psiquiatra, mas concluíram que é mesmo só raiva, não nenhuma doença psíquica. Mas já percebi que a colega é uma das suas vítimas do barco, não é?
Sou!
E ainda fui durante mais uns anos até mudar de local de trabalho, e deixar de andar de barco.
Teresa David- foto retirada da Net
segunda-feira, março 05, 2007


quinta-feira, março 01, 2007

O HOMEM DA BARATEIRA
Ainda não tinha 20 anos quando comecei a frequentar a Cervejaria Trindade, onde reencontrei algumas das pessoas que anteriormente tinha conhecido na Brasileira.
Era um entretanto, entre a saída do trabalho, e o regresso a casa, que me sabia bem. Ouvia gente interessante delirar, contar histórias, falar á boca baixa da situação política, e também assistia á presença dos habituais clientes, dos quais, sem dúvida, o homem da Barateira, era o mais invulgar.
Logo no primeiro dia reparei na sua figura esquálida, de faces encovadas, tez acinzentada, cabelo já grisalho, que solitariamente se encontrava sentado numa mesa pouco distante de mim. Á sua frente encontravam-se 3 canecas de litro de cerveja preta, que sem acompanhamento de comida, ia bebendo vagarosamente, prática esta que repetia três vezes ao dia, em jeito de refeição.
Ao cabo de muitos anos de convívio com gente, muita dela já falecida, onde destaco o Adriano Correia de Oliveira e o Manuel da Fonseca, pessoas que me encantavam pelo seu cantar e falar, o homem da Barateira permanecia sempre na mesma mesa, com roupa sempre igual, camisa branca e calça cinzenta, o mesmo ar fechado, acompanhado pela sua fiel cerveja preta.
Não comunicava com ninguém, salvo se alguma criança dele se acercava. Então a cara iluminava-se num sorriso triste, e dizia-lhe algumas palavras inaudíveis para mim.
Claro, que curiosa como sempre fui, acabei por tentar saber a razão de tal comportamento.
Soube então que vivia só, afastado de tudo e de todos, após a morte do filho. A sua vida dividia-se meramente entre a venda dos livros na Barateira, livraria e alfarrabista, mesmo ali ao lado da cervejaria, da qual era sócio, e a Trindade para beber as cervejas.
Morreu há três anos, sozinho, como tinha vivido longos anos, e segundo consta não foram as inúmeras cervejas que o mataram.
Um destes dias ao ler uma história de Monges de Munique que fabricaram uma cerveja preta de grande qualidade, ao ponto de decidirem levá-la a provar ao Papa, mas que devido á longa viagem acabou por azedar e ficar intragável, de tal forma, que diz a lenda, o Papa os obrigou a bebê-la como penitência, até ao fim da vida, veio-me á memória novamente a figura sorumbática do Sr. João Domingos, o homem da Barateira, e da sua penitência com a cerveja preta. Seria coincidência ou ele também saberia da história?
Após a sua morte, em homenagem a tão constante cliente, foi colocado um quadro desenhado a carvão, por autor cujo nome não recordo, num canto discreto da cervejaria, onde se vê a sua imagem, com uma enorme caneca de cerveja preta na mão, prestes a ser bebida.
Teresa David-imagens recolhidas na Net