

A SOLITÁRIA-aguarela por mim pintada


Em Albaycin deu-se a magia. Em redor do pequeno tablao, apinhavam-se, em cadeiras rústicas, pessoas de todo o Mundo.
Quatro boas dançarinas, com o salero estampado nas faces, batiam palmas,
enquanto um homem aciganado fazia soltar os sons guturais tão característicos do cante.
Um rapaz bastante jovem, de pele anormalmente alva, nada comum num bailarino de flamenco, invadiu o palco. Na cara a expressão concentrada de quem sente o que está a fazer. Os pés moviam-se em ritmo de tempestade, as mãos empranchavam-se percorrendo o céu e a terra.
Quando ele se retirou com uma cascata a descer corpo abaixo, chegou a vez de cada uma das intérpretes se exibir. Todas tão diferentes que não resisto a catalogá-las.
A primeira: a elegância
A segunda: A beleza
A terceira: a garra
A quarta: A resistência
Como balanço direi que não foi o melhor espectáculo de Flamenco que vi, mas, como sempre, conseguiu ter a forma do som, do corpo, da voz, suficientes para me encher os sentidos de prazer renovado.


Com a plena convicção que possuo de que os gatos são bâlsamo para o sistema nervoso e protectores dos nossos momentos tristonhos, o El Cordobez, nome com o qual o baptizei, em honra á cidade onde com ele me cruzei, acabou por ser um companheiro felpudo que até á despedida nunca deixou de me dar marradinhas afectuosas e esticar o seu pescoço gordo para que o acariciasse na cabeça.
Curiosamente esta história trouxe-me á memória outro gato com quem convivi em Granada, quando lá estive, com o meu filho mais novo, 10 anos atrás. Era siamês, extremamente meigo e vivia no Hotel onde fiquei. Todas as noites me arranhava a porta. Deixava-o entrar e vinha dormir enroscado no meu pescoço. O meu filho, que também gosta muito de gatos, então com 13 anos, mal chegávamos de passear não deixava de ficar um pouco a brincar com ele. Ficam aqui as imagens que documentam esse outro bichano, embora a minha foto tenha sido tirada á traição enquanto dormia.

Em suma, da Andaluzia guardarei sempre, a par da beleza das cidades, as imagens desses felinos que tão ternamente se aninharam na minha memória.
Teresa David-fotos tiradas por mim


Sempre gostei de ferros forjados, cresci em casa de meus pais com alguns apontamentos deles, na Andaluzia, tive o privilégio de os ver em todo o seu esplendor por todos os lados onde os meus olhos pousassem. A sua robustez leve, no ferro esculpido, que consegue proteger as janelas e pátios dos invasores, mas deixar-nos ver quase integralmente toda a magnificência dos pátios revestidos a azulejos multicores, onde uma vegetação majestosa os torna em verdadeiros jardins interiores.

Seria completamente impossível para mim acabar a visita sem percorrer completamente toda a área da judiaria onde encontrei inúmeras referências judaicas, bem como, casas com pátios lindíssimos.


Ligo sempre as grandes cidades aos pombos, do que resulta já possuir uma colecção de largas centenas de fotos desses pássaros, mal amados por muitos, mas, que para mim, são bastante fotogénicos, logo, aqui fica a imagem de um. Digam lá se não tenho razão?

Teresa David-fotos tiradas por mim
Gosto dos pinheiros que me abraçam.
Odeio os insectos que me tratam como acepipe,
me tornam em iguaria que devoram até á saciedade.
Gosto do cantar dos pássaros,
do marulhar das ondas, que se ouve,
vindo das profundezas do campo.
Mas sinto sempre, a mosca, mosquito, ou qualquer outro insecto,
beijando-me com uma intensidade tão excessiva,
que o meu corpo fica tatuado de feridas incómodas e visíveis
durante largos meses!
HUELVA
Numa terra sem grande graça como Huelva limitei-me a procurar as igrejas e Catedral, não por uma questão religiosa, assumo-me como uma descrente incondicional, mas sim, porque são os edifícios que têm maior grandiosidade arquitectónica, e, convenhamos, para quem gosta de fotografar como eu, algumas imagens belas para recolher.


Depois de ver a Catedral, ao andar a pé pela cidade deparei com mais uma prova da força da natureza. De uma parede de terra que tinha sido cortada para construção de uma estrada, brotou uma vegetação, que por momentos, me fez parecer, estar a passear num qualquer jardim botânico.
Finalizei a minha vistoria, ao deparar com uma pedra, que se encontrava num bairro desengraçado, mas que por si própria despertava a atenção de qualquer transeunte.



Entre dois belos e majestosos troncos a viatura-caracol se instalou. A disponibilidade do ritmo calmo de vida por aquelas paragens, fez-me regressar o prazer de confeccionar refeições com géneros frescos, comprados no mercado da terra, logo, os dias que por lá fiquei sempre comi em "casa".


Teresa David-fotos por mim tiradas
Hesitei em publicar estas memórias no dia em que se celebram 25 anos da morte do Adriano.
Contudo, como privei com ele cerca de dez anos, nos anos 70 e até á sua morte, particularmente na tertúlia de escritores, poetas, cantores, homens do cinema e outros, nos quais eu, anónima, me incluía.
O Adriano era um homem de poucas falas e muitos afectos. Absurdamente puro e ingénuo, tinha aquele olhar de quem nunca vai perder a inocência. Por essa razão, muitos, com poucos escrúpulos, o usaram .
Das vezes que o acompanhei nos concertos, que, graciosamente, dava pelo País, em nome de uma causa que abraçava com a sinceridade dos que ainda acreditavam que podiam construir um Mundo melhor, apesar da sua situação financeira não ser brilhante, quando a sua voz se elevava pelos ares, saíndo daquele corpo de urso de mel, uma qualquer forma de arrepio e êxtase nos invadia o sentir.
Infelizmente vários desencantos o levaram, como introvertido e tímido que era, a beber em excesso.
Fui testemunha numa ida a Santiago do Cacém com ele, sua mulher, o Manuel da Fonseca, autor de tantos poemas por ele cantados, que ía ser homenageado pela Câmara Municipal, os Trovante, ainda uns putos mal conhecidos, corria o ano de 1980, e outros escritores e poetas, de uma cena que se me colou á memória pelas piores razões.
O espectáculo seria só á noite. Todos nos juntámos num opíparo almoço servido com a mestria da cozinha alentejana e bem regado pelo vinho da região que faz estragos mas também nos remete para o Mundo eufórico da criatividade delirante.
A mulher do Adriano avisava-o amiúde para não beber mais porque iria actuar á noite. Mas a euforia de estar com amigos que gostava, confiava, fez com que não conseguisse parar.
O Manel foi dormir a sesta com a Hermínia, sua companheira, outros dar uma volta para desmoer, o Adriano, o Vírgilio e eu, ficámos.
O resultado foi desastroso, pois na hora de actuar, apesar de terem posto duas cadeiras no palco para se apoiar, o seu corpo agigantado balançava como uma folha ao vento, o que não obstou que tenha ainda conseguido lançar a sua voz única, em menos número de canções do que tinha programado, mas as suficientes para homenagear o seu amigo.
A partir dessa data, raras vezes o vi, salvo na Trindade, ou no João Sebastião Bar, habitualmente a beber, com uma tristeza liquída a inundar-lhe os olhos.
Quando ouvi a notícia do seu desaparecimento uma profunda tristeza me invadiu e relembrei a última vez que com ele estivera, em que tinha um adesivo sobre uma ferida feia e de aspecto duvidoso na cara, pouco falou e muito bebeu.
Teresa David-foto retirada da Net
Os laranjas tornaram-se cor de fogo que a folhagem negra ateou, até á chegada do fantasma da lua cheia para me aconchegar no negrume da noite.

Atrás do pardal segui, em caminho saltitante.
Perdi-o, para além da árvore, onde o balão da criança aterrou e se prendeu, como decoração natalícia precoce.
Teresa David-foto tirada por mim

DAS ÁRVORES
Do tronco a força que me mantem de pé.
Das folhas, o esvoaçar, que o vento ou tempestade
podem levar para longe.
Teresa David-foto tirada por mim