domingo, fevereiro 25, 2007


O DIDON
Comecei a trabalhar como bancária aos 17 anos, em plena época que a mini-saia era o furor máximo nas meninas, e arregalar de olho nos homens.
Como eu não era nada de deitar fora, ouvia piropos e recebia olhares de desejo com bastante frequência. Entre esses mirrones incluía-se o Didon, velho cauteleiro, que do alto do seu 1,58, derramava um olhar líauido, de evidente abuso de álcool, sobre as minhas pernas, sem contudo, nunca ter ousado dizer nada.
Trabalhava eu no r/c da Rua dos Sapateiros , no BPA, e o Didon ia amiúde até ao balcão para nos vender cautelas.
Nada disto teria nenhuma graça ou algo de especial, se não fosse o facto de ele também ser conhecido pelo Tenor, por entoar árias de Opera com uma voz estrondosa e afinada, que dificilmente pareceria possível sair daquele corpo franzino, tapado por um fato cinzento que brilhava de coçado, com a sua baixa estatura, onde apenas se destacavam a vivacidade do olhar, nuns olhos raiados por uma vida de muitos anos de dificuldades, e noites possivelmente mal dormidas, saber-se-ia lá onde, o sorriso maroto, mas nunca de homem vulgar, que mantinha aberto no rosto, guarnecido por uma cabeleira extremamente fina de fios grisalhos.
Ninguém jamais lhe conseguiu arrancar onde habitava e qualquer história da sua vida, mas a sua imagem permaneceu-me bem viva até aos dias de hoje, pois era extraordinário como papagueava ora o Barbeiro de Sevilha, ora a Traviata, sua ária preferida, usando sons que se aproximavam aos idiomas das mesmas, mas que eram completamente inventados, pois nunca aprendera as letras, nem sabia nenhuma língua estrangeira.
E era fácil que ele cantasse, essas, e outras árias, bastava dar-lhe uns trocos para ir beber o carioca de limão, bebida que passou a consumir, quando se divorciou dos copos de tinto, mas que de uma forma muito singular o deixavam igualmente um pouco toldado, ao ponto de imediato começar a entoar o seu canto.
Sempre me fez espécie o nome que ostentava, mais alcunha do que nome próprio certamente, mas mesmo que insistíssemos em saber o seu verdadeiro nome, ou fosse o que fosse sobre a sua vida, respondia sistematicamente: Didon chega!
Um dia estava no café, a beber a minha bica, quando ele entrou, e pediu o seu carioca de limão. Foi então que descobri que o mesmo não era a bebida inocente que ele nos fazia crer, pois levava um temperozito de bagaço, o que provocava que ao cabo dos vários que ia bebendo ao longo do dia, lá pelas 6 da tarde, os seus sapatos rotos, donde os mindinhos já quase saltavam, fossem palco de bailado um pouco irregular daqueles pés cansados de palmilhar a cidade.
Teresa David-foto da baixa por mim tirada

terça-feira, fevereiro 20, 2007


O SEMPRE NOIVO OU PINTOR DA NOITE
Nunca uma personagem se me manteve tão nítida na memória como o sempre noivo, ou pintor da noite, alcunhas que tinha, e lhe escondiam o verdadeiro nome, que era Arnaldo.
Embora fosse homem de 1,75m, pareceu-me um gigante, na primeira vez que o vi, nas suas deambulações diárias, pois eu não teria, nessa altura, mais de 10 anos.
Quando deparei com aquela figura de tez lívida, vestida de fraque, sapatos de verniz reluzentes, cabelo repuxado para trás com brilhantina, que lhe dava um tom negro asa de corvo, já com evidentes entradas, cara esfíngica, onde nunca foi possível vislumbrar um sorriso, camisa de uma alvura imaculada, que ainda realçava mais a sua palidez, e segundo constava, seria sua mãe que a engomava para se manter isenta de vincos, com aquele ar de ter sido acabada de comprar, fiquei embasbacada.
Nas mãos o bouquet de rosas brancas.
Começava a sua caminhada diária no cimo do Chiado, entrando na Brasileira, local que já eu frequentava com meu pai, e tive o prazer de privar com o Almada Negreiros e José Abel Manta, que se sentavam invariávelmente na mesa mais próxima da porta de entrada, onde mantinham um diálogo irregular, pois o Almada era de poucas falas, cerrando a cara de castanha pilada, encimada pela boina basca, que lhe tapava os cabelos grisalhos, enquanto o Manta, mais falador, relatava acontecimentos, com acutilância e bom gosto.
Á sua entrada erguia-se um coro em surdina, quase em uníssono, que dizia entre dentes:
LÁ VEM ELE!!!!
E o noivo, sempre com passo apressado, irrompia por ali adentro, ia até ao fundo da sala, sempre vociferando palavras ininteligíveis, e na mesma pressa voltava para trás para continuar o seu caminho, sempre a falar alto, quase a rebolar pela Chiado abaixo até ao Rossio, onde iria entrar no Nicola para fazer exactamente o mesmo ritual.
Com a curiosidade típica da minha idade, aquele comportamento bizarro, provocou-me tal curiosidade, que amiúde o seguia em todo o seu percurso, discretamente, pois temia que descobrisse a minha espionagem, e me agredisse, na tentativa desesperada de entender as palavras doridas lançadas ao vento em decibéis de amargura.
De noite ninguém jamais o viu, pois ficava sempre em casa a pintar os seus óleos da cidade, todos com luz nocturna, e que sempre me pareceram versões escuras das aguarelas do Carlos Botelho.
Tinham qualidade, e várias exposições fizeram da sua obra.
Até que um dia alguém finalmente me explicou:
Sabes, ele estava para casar, e a noiva morreu dias antes do casamento. Ele amava-a tão intensamente que enlouqueceu!
Daí aquela voz de revolta e irrequietude que lhe ficou até ao fim dos seus dias.
Teresa David- foto de T.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007



O CARLOS DOS JORNAIS

(1ª historieta de uma série que me proponho fazer sobre figuras com as quais me cruzei ao longo da vida por Lisboa)

Conheci-o já na última década da sua vida, quando ia comprar a minha dose de cigarros diária ao seu quiosque.

Habitualmente era sua mulher, franzina, baixinha, enrugada, mas com um aspecto doce e paciente, que mos vendia.

A ele, encontrava-o, logo de seguida, no café defronte do edifício onde trabalhava, em pleno Rossio, mas cuja entrada do pessoal se fazia pela Rua 1º de Dezembro.

E é aqui que se situa a graça desta historieta:

Sempre gostei de rimar, e quem melhor do que ele, figura típica da cidade de Lisboa, exactamente pela sua facilidade em dialogar em verso com as pessoas, para fazer uma desgarrada comigo?

Falo do Carlos dos jornais, que quem tiver mais de 50 anos e for de Lisboa, certamente se recordará, e que me cumprimentava todas as manhãs, dando os bons dias em rima, com palavras deste género:

Seja bem-vinda a Menina

Acabadinha de entrar

Com essa carinha linda

Ilumina o meu olhar!

AO QUE EU RESPONDIA:

Ora viva Sr. Carlos

Com a sua simpatia

Fico alegre e bem disposta

Logo no começo do dia

E se calhava reencontrarmo-nos outra vez durante o dia, lá ficávamos naquele diálogo versejante até á despedida, chegando a juntar-se pessoas em nosso redor para assistir.

Teresa David-foto da Net dum quiosque lisboeta

segunda-feira, fevereiro 12, 2007



S. VALENTIM


Meu coração já não bate,
Mas não parou de doer,
Por um Amor acabado
Que ainda me faz sofrer


Quieta cá no meu canto,
Vou afagando o meu gato,
Que morde e me arranha
Sem temor ou recato!



Valha-me S. Valentim!
Velador dos Amores
Para que possa por fim
Libertar os meus fervores


Ficarei mais completa,
ao cumprir os meus desejos
de abraçar um novo Amor
E cobri-lo com mil beijos
Teresa David






























quarta-feira, fevereiro 07, 2007











OS GATOS

Vai para 30 anos que partilho com algum felino a minha vida. Eles foram partindo, por doença sempre, e deixando sempre uma grata recordação da sua passagem junto de mim. Contudo, o Tiago, gato tigrado que apanhei junto ao Mercado da Ribeira, quinze anos atrás, e que cabia na íntegra numa mão, foi um companheiro muito especial pela sua rebeldia e ferocidade de gato selvagem, que os seis dedos em cada pata, comprovaram. Fez anteontem 15 dias que teve de ser abatido por estar com um cancro e diabetes, e algo se partiu em mim. Nunca uma perda felina me foi tão intensa como esta, de tal forma que senti absoluta necessidade de logo no dia seguinte ir em demanda de novo companheiro. E foi assim que conheci o Tição, gato de 3 meses, preto, como o nome que lhe dei bem indica, e que recolhi duma vivenda onde habitava bem tratado, mas com alguém que não podia continuar com ele.
Ao invés do Tiago, é meigo, embora na brincadeira bravia com as minhas mãos já me tenha deixado marcas visíveis.
Mas o que achei curioso foi a facilidade com que arranjei um gato preto, tendo-me sido dito no Hospital Veterinário onde procurei encontrar algum, que ainda existem muitas pessoas que detestam gatos pretos, chegando ao ponto de me advertirem para não o deixar sair de casa para não ser assassinado.
Moral da história: AS SUPERSTIÇÕES AINDA ESTÃO BEM VIVAS NESTE PAÍS!
Teresa David- fotos do Tiago e do Tição

sexta-feira, fevereiro 02, 2007



É DIA DO MEU ANIVERSÁRIO

02 de Fevereiro

E aqui faço um tchin tchin com todos os que me têm visitado e acarinhado ao longo da existência do meu blog.

Teresa David

domingo, janeiro 28, 2007



PEITO ARDENTE

Não são de cão as garras que se enterram no meu peito desnudo.

Olho, indiferente, o sangue que escorre peito abaixo, aquecendo a barriga com um quente viscoso.

Alheia, estática, o olhar fixa-se num ponto existente em nenhures.

Estado comatoso, sentada, transida de frio, á espera do beijo encantado que me poderá despertar!

Teresa David - quadro de Lucien Freud

quinta-feira, janeiro 25, 2007



AS COFFEE SHOP

Gosto muito de cafés, pastelarias, cervejarias, restaurantes, em suma, sítios onde se possa comer ou beber, de preferência em qualidade, e sem excessos.

De dia, para dia, sinto em Portugal mais dificuldade em habitar tais sítios sem me sentir completamente desconfortável. Ir para o café beber a bica, e tentar ler um livro é algo quase impossível, pois mesmo que tenha apenas uma ou duas pessoas, elas lançam as suas vozes até aos limites das cordas vocais, por detrás do balcão as chávenas gritam em encontrões entre si, e os empregados vociferam a raiva de serem mal pagos, suponho.

Ainda encontro um que outro restaurante mais calmo, mas se tenho o azar de haver aniversariantes logo a confusão e gritaria começa, ao ritmo dos copos que vão sendo despejados.

É então que recordo as minhas idas á Holanda, onde também se come e bebe, mas ninguém se atreve a altear a voz, pois seria logo olhado ferozmente por alguém, uma vez que o civismo já faz parte do quotidiano daquela gente, sem escolha de classes.

Indo mais longe não resisto a relembrar as coffee shops, que mal se cruza a porta ficamos pedrados pelo cheiro intenso da mistura do haxixe com a marijuana, mas onde se respira silêncio e paz. E questiono-me: Para quê reprimir e ilegalizar seja o que fôr, se numa sociedade civilizada em que existe o respeito uns pelos outros, ninguém por auto-repressão se atreve a incomodar os outros?

Acresce ainda que enquanto as drogas leves tornam as pessoas pacíficas, o alcóol que somos campeões de consumo, torna muita gente briguenta e completamente anti-social,

Não estou a fazer a apologia do consumo, pois apesar do tabaco que é legal ser tão ou mais deletério que as drogas leves para a saúde, para mim a base de tudo é o ânsia de ainda conseguir ver um dia, as pessoas neste País respeitarem as escolhas umas das outras sem agressões ou preconceitos bacocos.

Mas cada vez me parece mais uma utopia!

Teresa David-foto minha de Amesterdão

sexta-feira, janeiro 19, 2007



UMA GAIVOTA
Estava eu pacatamente a começar a comer uma gigantesca tosta mista em pão saloio, no 4º andar dos serviços médicos bancários, junto á rasgada janela sobre a mesquita perto da Praça de Espanha, onde me desloco amiúde para tratar as mazelas do corpo, quando ouvi um bicar estranho vindo da janela. Olhei, e apercebi-me que uma gaivota estava no parapeito a olhar-me fixamente. Como o rio ainda fica longe, achei estranha a sua presença por ali, mas continuei a trincar a minha tosta. Nova bicada, novo olhar, e o fixar-me de novo nos olhos! Aí já comecei a achar um pouco estranho, pois nunca tinha pensado ser possível uma gaivota ter um olhar tão penetrante.
Desconfiada que ela já seria "cliente" habitual dali, abri a janela e partilhei a minha tosta, que de tão grande exorbitava o meu apetite, e verifiquei que engoliu o pedaço de imediato, e voltou a olhar para mim fixamente. Voltei a abrir a janela, e dei-lhe á mão mais um bocado, que desapareceu num ápice.
Solitariamente divertida comecei a pensar com os meus botões que no fundo todos os animais se permitirmos arranjam forma de dialogar connosco. Mas foi a primeira vez que travei conhecimento de tão perto, e desta forma, com uma gaivota, que depois de saciada a fome me deitou um último olhar, e voou rápidamente para um candeeiro bem longe de mim.
Teresa David- fotos minhas

segunda-feira, janeiro 15, 2007






OS MUSEUS QUE VISITEI EM AMESTERDÃO
Desde muito tenra idade que tive o privilégio de visitar Museus. Meu Pai, amante incondicional de pintura, começou a levar-me a visitar exposições a partir dos 3 anos de idade. E como creio firmemente que é de pequeno que se adquirem hábitos de cultura, a ele devo ter permanecido até hoje com este prazer de deslumbrar-me com a Arte.
Embora já tivesse visitado o Museu Van Gogh na minha estadia em Amesterdão em 2003, achei que seria incontornável lá voltar, e em boa hora o fiz, pois tive a sorte de apanhar uma exposição temporária dos Modernistas Alemães, entre os quais Kandinsky, cuja obra nunca tinha visto ao vivo.
No Rijksmuseum vi uma extensa colecção da obra de Rembrandt, pintor presente em muitos recantos da cidade, quer através de monumentos em seu louvor, como da casa-museu onde habitou, e até de cafés ou pubs com o seu nome.
Por fim, consegui ver alguns quadros de coleccionadores russos que pertencem ao Hermitage de S. Petersburgo, mas estavam "na filial" Holandesa desse gigantesco Museu.
Deixo aqui as imagens de alguns quadros, que por razões diferentes me impressionaram, e gostava de partilhar desta forma o prazer que tive em sentar-me em frente deles e olhá-los longamente.
Mas o que realmente mexeu mais comigo foi ver, mães e pais com as suas crianças pequenas, a ensinar-lhes os nomes dos Pintores, pormenores dos quadros, para os tornar homens e mulheres com uma bagagem, que infelizmente já perdi a esperança de ver os nossos descendentes portugueses terem!
Teresa David
Da esquerda para a direita:
Quadro sarcástico do pintor Alfred de Dreux (1857) - Hermitage
A noiva judia de Rembrandt - Rijksmuseum
A cozinheira de Vermeer - Rijksmuseum
O cisne enfurecido de Jan Asselyn pintor do século XVII. Este quadro é um simbolo patriótico para os Holandeses
Quanto ao sapatos velhos é um quadro pouco conhecido de Van Gogh que já da outra ida ao Museu me tinha impressionado pela diferença em relação á sua restante obra.

quarta-feira, janeiro 10, 2007



A ESTRELA DO MAR

Uma Estrela do Mar na areia aportou.

O Sol queimante a matou.

Os banhistas á beira mar á bola jogavam,

e a Estrela do Mar, esmagaram.

Todos partiram e a noite chegou,

só a Estrela do Mar na areia ficou!

Teresa David- Aguarela pintada por mim

sábado, janeiro 06, 2007




OS CORVOS DE AMESTERDÃO

Ao passear-me pelas ruas de Amesterdão comecei a encontrar amiúde corvos empoleirados em árvores, plácidos, quase sem mexer, e nos arredores da cidade a caminharem lentamente pelos relvados.

Isso fez-me andar para trás até á infância, e recordar, os meus 8 anos, em que já partilhava a leitura do jornal com meu pai, que me dava sempre, além dos suplementos infantis, a página onde se encontrava a crónica de Leitão de Barros no Diário de Notícias, de nome "OS CORVOS", enquanto me dizia: Cultiva o sentido de humor que é uma das melhores armas que poderás ter ao longo da vida.

Eram sátiras de costumes, de uma finura de linguagem, que hoje, infelizmente, raramente se encontra nos cronistas contemporâneos. Embora ele tenha sido cineasta e eu tenha visto, em reprise, os seus filmes, nomeadamente, A SEVERA, ALA ARRIBA, e principalmente CAMÕES, onde uma das minhas tias maternas, agora com 91 anos, foi buscada a casa pessoalmente pelo Leitão de Barros, para participar num pequeno papel no filme,mas a sua gigantesca timidez e preconceitos, fizeram que lhe passasse ao lado uma carreira de actriz, são as suas crónicas que me ficaram a dançar na memória através dos anos, e provocaram recordá-lo quando decidi falar dos corvos de Amesterdão, pois os de Lisboa, só se encontram nos nossos dias na bandeira da edilidade!

Daí não resisto, e deixo aqui uma das suas crónicas, que infelizmente, diria mesmo, lamentavelmente, continua actual, apesar de decorridos quase 50 anos sobre a sua publicação:

VISTORIA

Um dos aspectos simbólicos das mais altas tradições peninsulares é o cuspir no chão. "Se proibe escupir en en suelo", "É proibido cuspir no chão" - são dísticos que não dei fé de ver afixados em quaisquer outros idiomas senão nos de Camões e de Cervantes. E diz-nos uma correspondente: "Na Suiça não há escarradores". A simples necessidade de fazer, por habitante, uma "capitação" da saliva é, por si, um sintoma de que permanecemos fiéis a uma histórica herança de nossos maiores. Há tempo fez-se, ingenuamente, a campanha de "engolir em seco". Chegou-se a pôr um polícia na estação do Rossio, de guarda ao cuspo. Passado, porém, certo tempo, o caso esqueceu, comos os enredos dos filmes de cinema, E o polícia foi o primeiro a cuspir, num hábito puramente profissional.

Desafio aqui alguém a dizer-me que já não vê ninguêm cuspir no chão, e com requintes de malvadez, escarros bem puxados dos seus âmagos!!!

Teresa David - aguarela minha baseada nos corvos vistos em Amesterdão

terça-feira, janeiro 02, 2007




ANNE FRANK HUIS (CASA)

Sempre fui um pouco esquiva a visitar casas/museu com cargas históricas de acontecimentos que mexeram comigo. Esta casa seria uma delas, daí não a ter visitado na primeira vez que estive em Amesterdão.
No entanto, desta vez afoitei-me, e quando entrei no esconderijo da Família Frank, em particular no quarto que ela habitara, cujas paredes forradas com fotos de estrelas de cinema da época, e estampas de flores e bichos, nos transportam para um Universo de adolescente cheia de sonhos que ficaram por cumprir, e com alguma imaginação poder-se-á visualizar as suas mãos a colar tais adereços, imagens estas que a própria menciona no seu diário quando diz: Assim o quarto fica mais acolhedor, menos pequeno!
Era a forma de abrir uma janela para o exterior - digo eu.
Pelas várias dependências encontrei ecrãs onde se podia assistir aos testemunhos de várias pessoas que passaram por aquela casa, como a secretária, e nomeadamente o seu Pai, que conseguiu ser salvo do Campo Concentração pelas Forças Aliadas.


Mas, mais do que tudo, o que realmente me fez engolir uma lágrima mais afoita, foi ver o original do diário, escrito com letra típica de menina, e tão semelhante á minha própria quando tinha a sua idade!


O meu lado familiar paterno é de origem Judaica, sem, contudo, nenhum dos seus membros ter assumido essa religião, pois todos eram ou são católicos, salvo a minha falecida tia Kika que guardava uma ambiguidade em relação aos dois lados, indo, por vezes, quase clandestinamente á Sinagoga onde mantinha boas amizades. Daí quando eu tinha 9 anos ter-me oferecido o "Exodus" de Leon Üris, e o Diário de Anne Frank, enquanto me dizia: Por mais que queiramos nunca fugimos aos nossos antepassados. Logo, é melhor que aprendas alguma coisa sobre o que lhes aconteceu, pois apesar de tudo corre-nos sangue judeu nas veias!

Foram estas palavras que me bailaram na memória, e que me fizeram regredir á minha própria infância, sensibilizar, e particularmente indignar-me, porque àquela Menina bastar-lhe-ia mais um mês de vida e teria sobrevivido aos Nazis!

Mas se assim tivesse acontecido o seu testemunho teria chegado até nós, e eu estaria agora a escrever a seu respeito?

Teresa David-fotos de postais ilustrados comprados na Casa de Anne Frank pois era proibido fotografar no seu interior.

domingo, dezembro 31, 2006

O MEU BLOG FAZ DIA 1 DE JANEIRO O SEU 1º ANIVERSÁRIO
e embora seja um lugar comum dizê-lo, parece que foi ontem.
Tem sido bom o convívio que ele me proporcionou com novas pessoas, algumas coisas até mudaram na minha vida por ele existir.
Voltou-me o prazer de escrever, de pintar, fotografar, passeei pelo meu País e não só, mas o que foi mesmo importante, foram os meses em que estive só, e encontrei sempre uma palavra amiga, maioritáriamente vinda no feminino, sem menosprezar alguns homens que sempre me trataram com enorme simpatia. Vou continuar por aqui, a partilhar os meus pensamentos, histórias e imagens, e convidando desde já todos a comerem comigo uma fatia do meu bolo virtual.

sábado, dezembro 30, 2006





AS BICICLETAS

Por vezes nem se vêem, tal a velocidade com que nos ultrapassam, conduzidas por crianças, jovens, adultos, e idosos.

Outras vezes jazem encostadas ás amuradas ou gradeamentos dos canais, em descanso merecido.

Também se vêem penduradas, como prestes a desabar na água, não fosse a forte corrente que as prende.

Amesterdão não seria a cidade que aprendi a gostar, se elas não existissem, presentes em todo o lado onde nos movimentamos.

Alguns passeiam os cães a correr, pendurados pela trela, ao lado dos donos que pedalam com todo o vigor das suas pernas,

Também existem as que têem um pequeno caixote incorporado, em madeira, onde os bébés apenas com o nariz escarlate visível, se aconchegam na pressa.

Mas o que é realmente singular, é ver os casais de namorados que pedalam, lado a lado, vagarosamente, com as caras vermelhas do frio e da paixão, com as mãos entrelaçadas, num equilíbrio absoluto de corpo e sentires.

Teresa David-fotos tiradas por mim nesta ida agora a Amesterdão/Dez.2006

quinta-feira, dezembro 21, 2006

A todos os que aqui passarem, dou a cara, para desejar um:










Teresa David

terça-feira, dezembro 12, 2006



OS PAPAGAIOS DO DESERTO DAS IDEIAS

Vivem das aparências. Os mais guarnecidos de cor empertigam-se, e sacodem as suas plumas Versace ou Gucci.
Aqueles, cuja falta de dinheiro não permite tal plumagem, encolhem-se em ramos mais pequenos e discretos. Todos calados á espera.
As frases feitas, ecoam na voz metálica dos poderosos, perturbando o silêncio.
É então que uma voz fina se espalha pela árvore, quando um pequeno recita palavras, e enche o deserto de poesia, a fazer calar desta forma, os lugares comuns dos pobres de espírito.

Teresa David-aguarela pintada por mim

terça-feira, dezembro 05, 2006



MATRIARCADO

Enorme, maior que os machos, deixa-se fecundar para construír o seu exército de obreiras.
E milhões se irão unir para trabalhar com afã no laboratório do mel.
Os zangaões, seres inferiores, proíbida a entrada na fábrica, esvoaçam á sua porta, na longa espera de serem convocados pela Rainha. É indiferente que morram depois da cópula. Já não servirão para mais nada!
A Rainha, na sua Majestade, sobreviver-lhes-á mais vinte e cinco anos, nos quais irá procriar, incessantemente, as fêmeas laboriosas, resistentes, que dedicarão o seu mês e meio de vida, na faina constante e rotineira, entre a recolha da matéria prima, de flor em flor, e as tarefas na colmeia, pois a produção nunca pode parar.
Teresa David-Aguarela da árvore pintada por mim e foto retirada da Net

sábado, dezembro 02, 2006


Após uns dias de ausência devido ao meu computador ter dado o berro, e agora com uma mother board nova e outros componentes, aqui estou de volta:

O MUNDO É UMA MAÇÃ

O Mundo é uma maçã que todos querem trincar, e acabam por apodrecê-la na sua ânsia de grandeza.
Lançam-lhe bombas que matam inocentes, impestam-na com químicos poluentes, e lamentávelmente, nunca veremos essas larvas aspirarem a serem borboletas esvoaçantes para embelezar o Planeta.

Teresa David- aguarela pintada por mim

sexta-feira, novembro 24, 2006




MULHER-ARANHA
Aranha fui, pessoa me tornei.
As longas pernas deixaram de tecer,
e apenas duas restam para avançar na vida.
Olho com saudade as tessituras que me escondem
de olhares intrusos, quando me aninho no canto.
Miro os móveis que adornei e se espalham por aí.
Fito-as, e fito-me no aspecto humanóide que adquiri.
Já aranha não sou,
resta-me a nostalgia, quando olho a teia,
que teimosamente sempre reaparece
no tecto da sala.
Teresa David-fotos de rendas feitas por mim