
MARIA JUDITE DE CARVALHO
Andar a pé tem enormes vantagens. Não é só a questão de nos fazer bem ao corpo, mas também podermos ver pormenores que de carro nos passam completamente despercebidos.
Andar a pé tem enormes vantagens. Não é só a questão de nos fazer bem ao corpo, mas também podermos ver pormenores que de carro nos passam completamente despercebidos.
Um destes dias tive de fazer uma caminhada de alguns quilómetros para ir buscar o carro que tinha deixado na revisão. Foi assim que descobri uma rua onde já passara de carro inúmeras vezes, de nome Maria Judite de Carvalho.
Na adolescência li o livro “tanta gente Mariana” que me despertou curiosidade para a obra da já citada autora da qual fiquei fã a par com a Irene Lisboa, que, por qualquer razão que desconheço, salvo serem ambas mulheres que falam de Lisboa e de pessoas coloco no mesmo cesto de qualidade e grandeza.
Infelizmente, nem uma nem outra são autoras tão conhecidas como mereceriam, mas isso faz parte da forma como este País trata os seus escritores, não lhes dando o destaque devido, a menos que, como o Saramago, sejam laureados a alto nível, que aí seria demais não falar deles.
Serviram as palavras anteriores para dizer que nos anos 80 tive o prazer de passar férias em Tróia ao mesmo tempo que o casal Urbano Tavares Rodrigues/Maria Judite de Carvalho.
Tróia sempre foi muito frequentada por escritores, devido a APE ter, na altura, um contrato com a empresa gestora que lhes proporcionava grandes descontos nas estadias. Disso também eu usufrui porque na altura vivia com o Virgílio, também escritor. Claro que agora na era do Belmiro de Azevedo essas mordomias terão acabado certamente, porque transformou aquele espaço num resort de luxo.
Uma noite ao irmos jantar ao restaurante, encontrámos já sentados o Urbano e a Judite que gentilmente nos convidaram para sentar e comermos todos juntos. O Virgílio a dado passo disse á Maria Judite que eu era uma admiradora sua. Fiquei um bocado corada e intimidada, embora de imediato já tivesse notado que a senhora que á minha frente se sentava, era alguém despretensioso que passaria por uma esposa burguesa apenas dona de casa, se eu não conhecesse a sua obra.
Mulher gentil e discreta, de poucas palavras, contrastando fortemente com as suas personagens que eram povoadas de grandes revoltas, frustrações, em suma, sentimentos negativos trazidos pela idade e vidas infelizes, não guardo na memória a nossa conversa, que, creio terá tratado de coisas bastante comuns, onde nunca aflorou o mal que já a minava, um cancro, que em 1998 acabou por derrotá-la. Mas o seu ar calmo, o lembrar-me permanentemente das palavras escritas, fizeram ficar empolgada pelo encontro, onde, o Urbano falou mais, como sempre, no seu estilo melado, que lhe valeu em certos meios a alcunha do “lésbico”, por adorar fazer a corte ás alunas da faculdade, o que contrastava com a sua forma quase afeminada de se exprimir.
Recordo igualmente as tardes na piscina, onde soube que o Urbano teria sido campeão de natação, o que comprovei ao vê-lo atravessar em crowl com uma rapidez de fazer inveja a qualquer jovem, a piscina olímpica num abrir e fechar de olhos.
Teresa David-foto retirada da net