
LA STRADA
Gosto dos filmes de Fellini, desde que me conheço. Ou seja, desde que a razão me deixou perceber a profundida de análise de alguns deles. Desejei ir a Roma a primeira vez que vi "Roma de Fellini", montar as potentes motas que volteiam sem parar em redor duma praça, ambicionei não morrer sem mergulhar na fonte de Trevi, qual Anita Erberg, mas particularmente guardei até hoje uma imagem do "la strada" que se passa logo no início do filme. Geralmente associa-se de imediato ao filme a personagem singular e espantosamente bem desempenhada da "Massimo". Para mim não foi essa, mas sim a de um homem esfarrapado, dependurado numa árvore, que lança um grito lancinante ao dizer: Voglio una donna!
O filme é de 1954, idade em que eu ainda mamava nas belas mamas da minha mãe, não, não estou a fazer-me mais nova, tinha 2 anos e mamei até aos 3! Vi-o pela primeira vez nos anos 60, e, confesso que não me fez grande mossa. Contudo, já pelos 30 e tal anos, ao revê-lo, aquele homem carente de tudo, que ao invés de pedir esmola na "strada", se empoleirava na árvore apregoando aos quatro ventos o seu desejo carnal, foi o que deveras me impressionou.
Serve isto para dizer que muitas das vezes que leio, seja em poesia ou prosa, alguns escritos de pessoas várias, me ocorre se não estarão de uma forma mais elaborada, a lançar o mesmo grito de desesperada solidão.
Quero com isto dizer que não se admirem caso um dia qualquer, se se soltarem os desejos reprimidos ou adormecidos, de me verem empoleirada em qualquer árvore, esfarrapada, a gritar a plenos pulmões: VOGLIO UNO UOMO!, que seria mais ao meu estilo, do que o carpir encapotado de carências sexuais.
Teresa David- foto retirada da net