
Teresa David-fotos da net
A SOLITÁRIA-aguarela por mim pintada



LA STRADA
Gosto dos filmes de Fellini, desde que me conheço. Ou seja, desde que a razão me deixou perceber a profundida de análise de alguns deles. Desejei ir a Roma a primeira vez que vi "Roma de Fellini", montar as potentes motas que volteiam sem parar em redor duma praça, ambicionei não morrer sem mergulhar na fonte de Trevi, qual Anita Erberg, mas particularmente guardei até hoje uma imagem do "la strada" que se passa logo no início do filme. Geralmente associa-se de imediato ao filme a personagem singular e espantosamente bem desempenhada da "Massimo". Para mim não foi essa, mas sim a de um homem esfarrapado, dependurado numa árvore, que lança um grito lancinante ao dizer: Voglio una donna!
O filme é de 1954, idade em que eu ainda mamava nas belas mamas da minha mãe, não, não estou a fazer-me mais nova, tinha 2 anos e mamei até aos 3! Vi-o pela primeira vez nos anos 60, e, confesso que não me fez grande mossa. Contudo, já pelos 30 e tal anos, ao revê-lo, aquele homem carente de tudo, que ao invés de pedir esmola na "strada", se empoleirava na árvore apregoando aos quatro ventos o seu desejo carnal, foi o que deveras me impressionou.
Serve isto para dizer que muitas das vezes que leio, seja em poesia ou prosa, alguns escritos de pessoas várias, me ocorre se não estarão de uma forma mais elaborada, a lançar o mesmo grito de desesperada solidão.
Quero com isto dizer que não se admirem caso um dia qualquer, se se soltarem os desejos reprimidos ou adormecidos, de me verem empoleirada em qualquer árvore, esfarrapada, a gritar a plenos pulmões: VOGLIO UNO UOMO!, que seria mais ao meu estilo, do que o carpir encapotado de carências sexuais.
Teresa David- foto retirada da net



SARAMAGO
Os anos 80 estavam mesmo no seu início, quando mudei de Lisboa para a Margem Sul. Deveu-se esta movimentação geográfica, essencialmente, ao facto de ter começado uma vida em comum, com o Virgílio Martinho, que além de escritor, colaborava com a Companhia de Teatro de Almada, logo, estar dessa banda facilitar-lhe-ia imenso a vida.
Por essa altura, a Companhia levou á cena uma peça do José Saramago de nome "O que farei com este livro".
Os ensais começaram e o autor e sua mulher, na altura, Isabel da Nóbrega, também escritora, senhora de fino trato, que tinha feito na RTP uns programas literários, pouco criativos, pois limitava-se a sentar-se numa cadeira, ler em voz alto para os espectadores, um dos seus livros, capítulo a capítulo, acompanhava-o sempre.
A escolha do actor que iria encarnar a personagem do Camões, recaiu no saudoso Canto e Castro, com quem passei muitos momentos de conversa e, visitei, amiúde, na sua casa de Almada, onde residia com a mulher, também actriz, que desapareceu completamente, embora me conste que ainda está viva, Ema Paul. Ela consumia comprimidos para dormir e outros para acordar, pelo que sempre a vi em estado de nuvem que paira sobre a vida.
O encenador decidiu que a personagem vestiria fato e gravata, isto é, seria actualizada aos nossos dias, ideia que provocou um arrepio histórico na Isabel da Nóbrega, purista absoluta, o que a levou a timidamente, num dos dias de ensaios, a dizer: Não se poderia ao menos pôr uns punhos de renda a sair das mangas do casaco?
Saramago aceitou a escolha teatral sem nada colocar de entraves.
Foi um espectáculo que recordo como belo e eficaz.
Como o Saramago era amigo e camarada do meu companheiro, começámos á 4ª f a jantar os quatro em Lisboa.
O homem conhecido por arrogante e distante, sempre me tratou com delicadeza e um brilho nos olhos de quem está vivo e criativo.
Depois do Memorial do Convento a sua vida alterou-se , os jantares começaram por se tornar espaçados e, a seguir, acabaram.
No entanto, a última memória que dele tenho é muito curiosa.
Quando nos convidou a irmos ao lançamento do seu livro "História do Cerco de Lisboa, no Castelo de S, Jorge, acedemos de bom grado.
Assim que ultrapassámos as amuradas, cruzámo-nos com o Mário Soares, que quando fora Presidente da República, enviava sempre as Boas Festas para minha casa, dado que vira a peça "Filopopolus" nos idos anos 70, ainda no Teatro de Campolide e, ficara com admiração pelo Virgilio como autor teatral e escritor. Ouvi da sua boca rasgados elogios ao que dele lera.
Logo a seguir vi o Saramago, junto ás muralhas, olhando Lisboa a deslizar por ali abaixo até se afogar no Tejo, enlaçando uma rapariga.
Momentos depois já na sala de recepções, acercou-se de nós com um olhar de menino apaixonado, pousou um braço no ombro do Vírgilio e disse:
Apresento-vos a Pilar. - e á boca pequena acrescentou: Também já tenho uma mulher nova como tu!
Este ano revi a Isabel da Nóbrega, que me olhou com aquela expressão de quem conhece a outra pessoa de algum lado. Senti-me constrangida em abordá-la. Resta-me a dúvida se realmente me reconheceu ou não.
Teresa David-foto recolhida da Net
A absoluta cumplicidade
As brincadeiras
Em perseguição do protector
As necessidades partilhadas
O bibelot
Gato e rato


Veneza emerge das águas com as máscaras de ouro sobre a cara.




A PISCINA E O MAR
Dei, então, a minha tarefa como cumprida!
No entanto, até ao ninho tombar, desfazer-se e os novos seres migrarem para outras paragens, fui assistindo ao seu desenvolvimento, bem como, ao aparecer de mais uma pequena cabeça que piava mais estrondosamente que todas as outras juntas!


Nunca vi em Portugal estas laranjas que antes de cortadas são rigorosamente iguais ás demais, mas quando as abrimos surgem num esplendor sanguinolento. Seu paladar é idêntico, embora a textura do sumo mais grossa.
Impressionaram-me de tal forma que acabei por escrever umas frases poéticas para as ilustrar, que a seguir partilho convosco:
Vampira não sou
Sem dentes sorvo o suco,
onde deixo a marca das mágoas que engoli
e regorgitei, em sangue coalhado
além disso acabei também por pintar uma natureza morta com insecto e laranjas de sangue que também aqui vos mostro.
Teresa David-fotos e aguarela minhas

O clima traiu-me algumas vezes, trazendo dias chuvosos.
Olhar o mar cinzento, a piscina deserta, as pessoas recolhidas nos seus habitats e as esplanadas com as cadeiras encostadas ás mesas, como aviso de não as podermos usar, poderia ser tristonho, mas acabei por me divertir á grande!
da pouca roupa dos dias solarengos, os chinelos foram abandonados, dando lugar aos ténis ou mocassins.





